Arquitetura, história e hospitalidade às traças

Arquitetura, história e hospitalidade às traças

Conforme dados da biblioteca do IBGE (2016), no ano de 1801, quando Portugal e Espanha entravam em guerra na Europa, estendia-se o conflito ao Rio Grande do Sul. Para apoderar-se dos vice-reinados sul-americanos, Dom João VI concentrou forças para que Dom Diogo de Sousa iniciasse a marcha sobre Montevidéu e no dia 11 de junho de 1811, antes do início dessa marcha, a cidade de Bagé era fundada.

Modernamente, essa localidade fronteiriça com o Uruguai, de povo hospitaleiro, foi contemplada com o início de um projeto e obras de revitalização de vários prédios históricos com predominância do estilo arquitetônico neoclássico espanhol, que foram tombados pelo Patrimônio Histórico (IPHAE, 2006), o que alimentou na população a expectativa do potencial turístico.

Contudo, dez anos depois a manutenção dos prédios não teve progresso. (MUZA, 2016).

O IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (2009) fez o INRC – Inventário Nacional de Referências Culturais em Bagé, onde consta que quase toda a área central da cidade tem relevância histórica (COUTO, 2014) contando com mais de 750 prédios, inclusive o calçamento de pedras, como assinala o historiador Boucinha (2010).

Enquanto a hospitalidade tem ligação com a história e a origem de tantos locais e a preservação da memória (CASTRO, 2008) – importante fator na formação da personalidade de um povo e tão importante mundo afora (BERNARDO, 2002), nesse lugar é diferente. Um imponente pórtico, lindos prédios e praças, itens que, segundo Castelli (2010, p. 145), são sinais de hospitalidade no domínio público. Então, em Bagé, a hospitalidade, sob o ponto de vista de suas políticas públicas, não está ligada ao turismo.

A cidade também contou com expressiva colaboração de uma forte empresária carioca, Zuleika Borges Torrealba, do grupo Da Maya (COUTO, 2014), que encantou-se com a riqueza arquitetônica da cidade. Ao visitar o haras lá mantido por seu filho, adquiriu e restaurou vários prédios e, em um deles, criou um espaço cultural e mantinha o projeto de uma jornalista local: um periódico bimensal (Patrimônio da Comunidade), com 5 mil exemplares por edição, distribuídos gratuitamente na cidade, com preciosas informações para a valorização local. A empresária acumula títulos de benfeitorias pela cidade que decidiu acolher, o povo hospitaleiro ressalta seu nome e a homenageia, mas seus esforços mostraram-se vãos.

Fagundes (2012), uma médica cardiologista, moradora da cidade, fez extensa pesquisa sobre a formação arquitetônica da localidade e lançou livro ricamente ilustrado e um curta-metragem de 6 minutos (FAGUNDES, 2013). O livro conta fatos locais de repercussão nacional, bem como curiosidades, todos aliados à rica arquitetura, dada a prosperidade presente no local à época. Em jornal local, Silva (2012) entrevista Fagundes (2012), que salienta que as pesquisas para a reedição do livro contaram com consultas em arquivos na Europa, em Portugal e cidades como Londres e Paris e conta: “percebi com a pesquisa, que Bagé tem um vínculo histórico no mundo todo”.

Mesmo que a autora goze de prestígio por essa valorização local, os resultados não são à altura de suas largas tentativas. Os prédios recebem parcas doações, nunca significativas e as obras realizadas não são sequer as emergenciais. A riqueza arquitetônica local não é valorizada, menos ainda turisticamente explorada em favor dos que lá vivem.

Conforme Muza (2016), nos últimos anos, as políticas públicas não alimentam projetos de revitalização com necessária gestão comercial – muito embora a gestão municipal seja do mesmo partido político vigente à época dos tombamentos -, não mantêm o viés cultural alimentado inicialmente e os gestores dizem não haver condições de fazer as dispendiosas manutenções, tão importantes para o incentivo da hospitalidade que o povo oferece – duas grandes fontes turísticas desperdiçadas.

Questiona-se a atitude cultural local, pública e privada, relegada à boa vontade de um pequeno grupo – Movimentação pela Defesa do Patrimônio Arquitetônico -, que já mobilizou a comunidade em um abraço simbólico a prédios significativos (FURTADO, 2010) e à caridade alheia. Não tem-se as mínimas medidas de valorização de tantos lugares históricos europeus e até de países vizinhos, como Uruguai e Argentina, tão bem mantidos e visitados.

Se a cidade de Bagé está classificada no 764º lugar – entre 5.565 classificações – no índice de desenvolvimento humano municipal (IDHM), segundo o PNUD (2010), Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, onde encontra-se a valorização da origem e a continuidade do desenvolvimento cultural e hospitaleiro dessa cidade se o seu patrimônio histórico está abandonado às traças?

Leslie Neto Mendes

REFERÊNCIAS

BERNARDO, Fernanda. A ética da hospitalidade, segundo J. Derrida … Revista Filosófica de Coimbra. Coimbra, n. 2, 2002. Disponível em: <http://www.saavedrafajardo.org/Archivos/Coimbra/22/Coimbra22-03.pdf>. Acesso em: 02 jul. 2016.

BOUCINHA, Claudio Antunes. Não ao asfalto?. 2010. Disponível em: <http://claudioantunesboucinha.blogspot.com.br/2010/07/nao-ao-asfalto.html>. Acesso em: 26 jun. 2016.

CASTELLI, Geraldo. Hospitalidade: a inovação na gestão das organizações prestadoras de serviços. São Paulo : Saraiva, 2010.

CASTRO, Cláudia Steffens de. Educação para o turismo: preservação da identidade regional e respeito à cultura imaterial. Fênix – Revista de História e Estudos Culturais. Minas Gerais, ano 5, v. 5, n. 4, out./nov./dez. 2008. Disponível em: <http://www.revistafenix.pro.br/PDF17/ARTIGO_07_CLAUDIA_STEFFENS_DE_CASTRO_FENIX_OUT_NOV_DEZ_2008.pdf>. Acesso em: 02 jul. 2016.

COUTO, Fernanda. As construções que contam histórias: o desafio de não deixar os prédios do centro histórico de Bagé ruírem. Jornal Minuano. Bagé, 01 jun. 2014. <http://www.jornalminuano.com.br/VisualizarNoticia/9046/as-construcoes-que-contam-historias.aspx>. Acesso em: 26 jun. 2016.

______. Empreendimentos Da Maya encerram atividades. Jornal Minuano. Bagé, 10 dez. 2014. Disponível em: <http://www.jornalminuano.com.br/VisualizarNoticia/14196/empreendimentos-da-maya-encerram-atividades.aspx>. Acesso em: 26 Jun, 2016.

FAGUNDES, Elisabeth Macedo de. Inventário cultural de Bagé: um passeio pela história. Porto Alegre: Praça da Matriz, 2012.

______. Um passeio pela história de Bagé. Vídeo. 2013. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=qi1iaOo84VY>. Acesso em 26 Jun, 2016.

FURTADO, Cálvin da Cas. Patrimônio histórico na pauta. Folha do Sul Gaúcho. Bagé, 28 dez. 2010.

IBGE. Bagé: Rio Grande do Sul – RS. 2016, Porto Alegre: IBGE. Disponível em: <http://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/dtbs/riograndedosul/bage.pdf>. Acesso em: 27 jun. 2016.

IPHAE. Bens tombados. Porto Alegre, 2006. Disponível em: <http://www.iphae.rs.gov.br/Main.php?do=BensTombadosAc&Clr=1>. Acesso em: 26 jun. 2016.

IPHAN. Inventários realizados. Brasília, 2009. Disponível em: <http://portal.iphan.gov.br/pagina/detalhes/685>. Acesso em: 26 jun. 2016.

MUZA. Jaqueline. Prédios históricos tombados há 10 anos sofrem pela falta de manutenção. Jornal Minuano. Bagé. 4 abr. 2016. Disponível em: <http://www.jornalminuano.com.br/VisualizarNoticia/27440/predios-historicos-tombados-ha-10-anos-sofrem-pela-falta-de-manutencao.aspx>. Acesso em: 26 jun. 2016.

PNUD. Ranking IDHM municípios 2010: atlas do desenvolvimento humano no Brasil. Brasília, 2013. Disponível em: <http://www.pnud.org.br/atlas/ranking/Ranking-IDHM-Municipios-2010.aspx>. Acesso em: 28 jun. 2016.

SILVA, Marcelo Pimenta e. Livro de Elizabeth Macedo de Fagundes resgata informações históricas da cidade. Folha do Sul. Bagé, 28 dez. 2012. Disponível em: <http://www.jornalfolhadosul.com.br/noticia/2012/12/28/livro-de-elizabeth-macedo-de-fagundes-resgata-informacoes-historicas-da-cidade>. Acesso em: 26 jun. 2016.

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