Até onde vale a pena investir em um megaevento?

Até onde vale a pena investir em um megaevento?

Sediar um megaevento é uma ambição de diversas nações. Para Gabriel Silvestre (2008), os megaeventos são almejados por governos porque aumentam a visibilidade da cidade ou do país e, ao mesmo tempo, fornecem recursos financeiros necessários para a revitalização de áreas urbanas, uma vez que elas irão comportar um número anormal de pessoas durante certo período do ano. No entanto, há uma pergunta que deve, imprescindivelmente, ser feita: o dinheiro gasto com investimentos para megaeventos trará retorno financeiro ou causará prejuízos para os investidores?

Ao mesmo tempo em que os megaeventos “podem ser um catalisador de investimentos na infraestrutura urbana e ajudar a dinamizar o turismo […]” (VAZ, 2011), os custos da melhoria de rodovias, de estádios e de hotéis podem não ser recuperados durante os eventos, uma vez que os mesmos costumam durar em média, três semanas, a exemplo das olimpíadas.

Para que os empreendedores públicos e privados não saiam prejudicados, é preciso tomar atitudes muito inteligentes acerca do aproveitamento das obras após o seu término. Durante a última Copa do Mundo no Brasil, muitos hotéis realizaram aperfeiçoamentos em suas estruturas a fim de atender à demanda do período. Na edição de 2014 do Fórum Brasil, encontro realizado pela revista Carta Capital em São Paulo, Chieko Aoki, presidente da rede Blue Tree Hotels defendeu que o dinheiro gasto nos melhoramentos terá bom retorno. Ela investiu em capacitação para o time de recepção, além de reformar diversas unidades habitacionais (ÁRBOCZ, 2014). Com os Jogos Olímpicos se aproximando, voltam os questionamentos acerca dos benefícios e legados deste megaevento. No Rio de Janeiro, cidade sede do acontecimento, inúmeros hotéis estão sendo construídos para receber os turistas que irão até lá no mês de agosto, o que fará com que a cidade aumente em cerca de 30% seu número de UHs – unidades habitacionais (VERTICCHIO, 2013). Grande parte dos apartamentos que serão construídos estarão localizados na Barra da Tijuca, área conhecida por seus espaços de convenções. A expectativa é que a realização de eventos menores mantenha o giro de hóspedes nos novos hotéis (VERTICCHIO, 2015).

Enquanto empreendedores concordam que é viável aprimorar o setor hoteleiro em função de um megaevento, é imprescindível entender que o número de hóspedes que circularão pelo país naquele curto período será atípico. É preciso que todos se perguntem se o acréscimo de UHs é realmente tão indispensável. Afinal, ao longo dos anos nunca houve uma demanda para aumentar tão drasticamente o número de apartamentos.

Será que vale a pena investir tanto para apenas um evento de duas semanas? Ao ser questionada Chieko Aoki relembra o caso de Cingapura, que sediou os Jogos Olímpicos da Juventude em 2010. Foi investido muito em hotéis que, posteriormente, ficaram ociosos. No entanto, a solução foi criar uma zona livre de impostos, as chamadas duty free zones e isso passou a atrair turistas novamente (ÁRBOCZ, 2014).

Resta agora aos empresários e ao setor público a tarefa de juntar o empreendedorismo à criatividade para evitar que todo o dinheiro gasto em melhorias no país seja abandonado assim que os jogos olímpicos acabarem e os turistas deixarem o país.

Mônica Villas Bôas

REFERÊNCIAS

ÁRBOCZ, Neuza. Turismo: o legado da Copa e das Olimpíadas. 2014. Disponível em: <http://www.cartacapital.com.br/dialogos-capitais/turismo-o-legado-da-copa-e-das-olimpiadas-7559.html>. Acesso em: 29 abr. 2016.

SILVESTRE, Gabriel. The social impacts of mega-events: towards a framework. Esporte e Sociedade. Rio de Janeiro, n. 10, nov. 2008 – fev. 2009. Disponível em: <http://www.uff.br/esportesociedade/pdf/es1010.pdf>. Acesso em: 29 abr. 2016.

VAZ, Leopoldo Gil Dulcio. Lazer, hospitalidade, identidades e culturas regionais e locais. Motrivivência. Florianópolis, n. 36, p. 232-333, jun. 2011. Disponível em: <https://periodicos.ufsc.br/index.php/motrivivencia/article/view/2175-8042.2011v23n36p323/19657>. Acesso em: 29 abr. 2016.

VERTICCHIO, Diego. Até Olimpíadas, Rio ganhará mais 15 mil novas UHs. 2015. Disponível em: < http://www.panrotas.com.br/noticia-turismo/mercado/at%C3%83%C2%A9-olimp%C3%83%C2%ADada-rio-ganhar%C3%83%C2%A1-mais-15-mil-novas-uhs_102695.html >. Acesso em: 29 abr. 2016.

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