Backpackers: a nova classe média viajante?

Backpackers: a nova classe média viajante?

Backpackers internacionalmente ou mochileiros no Brasil é uma denominação utilizada para viajantes que preferem organizar suas viagens de maneira independente, flexível e econômica, normalmente por um período de tempo mais estendido, buscando conhecer vários destinos, e compreender mais afundo a cultura local, não se prendendo a city tours extremamente turísticos.

Segundo Alteljevic e Doorne (2002) citados por Oliveira (2008) o termo backpacker foi introduzido aos estudos turísticos pelo australiano Philip L. Pearce em 1990, que de maneira globalizada vem sendo utilizado até os dias de hoje. Uma das definições mais contemporâneas sobre mochileiros é citada por Murphy (1995, p. 823): turistas jovens e econômicos que mostram preferência por acomodações baratas, enfatizando o encontro com outras pessoas (locais e estrangeiras), organizam o itinerário de viagem de forma independente e flexível, seus períodos de férias são longos e buscam atividades recreativas informais e participativas.

Segundo Sorensen (2003) a maioria dos mochileiros tem entre 18 e 33 anos, predominando universitários de classe média entre 22 e 27 anos.

De acordo com Scheyvens (2002), os governantes de países de terceiro mundo normalmente desprezam os turistas backpackers, concentrando seus esforços para atender da melhor maneira o turismo de luxo. O Brasil também adota essa prática, dito por Aoqui (2005), que menciona o descaso com os mochileiros internacionais e nacionais no Brasil, tendo como referência os outros países da América do Sul, que recebem grandes números destes viajantes alternativos. O desdém com estes viajantes ocorre tanto pelo poder público como pelo privado. Segundo o autor, a imagem de mochileiro no Brasil é tida como de hippies, vagabundos e drogados. A motivação deste tipo de viajante alternativo difere das prioridades do turista convencional.  Na visão de Ruschmann (2002, p. 102), essa forma de viajar se opõem ao turismo de massa e caracteriza-se pelo pequeno porte dos equipamentos turísticos, tanto de hospedagem como de transporte, uma vez que normalmente estes turistas viajam sozinhos ou em duplas, com raras exceções.

Krippendorf (2001) complementa que este tipo de turismo tem o objetivo de fugir dos destinos de massa, centrados em perspectivas estritamente comerciais. Outra característica singular desse viajante é desbravar áreas não mencionadas em guias, interagindo com nativos, alojando-se em hostels ou campings, e ainda utilizando-se de transporte público. Os mochileiros quando buscam por seus destinos, optam por guias físicos como Lonely Planet, ou por sites e guias eletrônicos, que lhes auxiliam em suas pesquisas e planejamentos, tais como: Minube, Mochileiros, Tripadvisor, Worldpackers, Rome2rio e ainda em várias outras fontes de informação não oficiais, através de blogs e vlogs. Segundo Mall (2009) os melhores sites para público jovem, como universitários e viajantes independentes, devem ser autoexplicativos para seus visitantes, contando com uma navegação e design, simples e dinâmica, a fim de evitar que os usuários tenham que perder tempo compreendendo a estrutura. Para o autor, isso torna o site convidativo e funcional, pois este é o aspecto mais procurado pelos mochileiros.

A Austrália e a Nova Zelândia têm se destacado neste novo mercado com politicas de incentivo ao turismo de mochila. “O governo tem desde 1995 dados estatísticos sobre o mercado mochileiro em esfera nacional e regional, e investe em divulgação e infraestrutura” (TOURISM AUSTRALIA, 2008).

Segundo o Tourism Australia (2008) o crescimento anual deste segmento é de 3,5% enquanto o turismo convencional é de apenas 1,4% no país. “O mercado backpacker australiano, de tão consistente, incentivou a rede hoteleira Accor a criar a marca Base, com tipologia hoteleira de albergues” (BASE, 2010).

A Nova Zelândia, também desenvolveu estratégias para atrair mais backpackers, com treinamentos oferecidos pelo governo a albergues, que visam melhorar a relação entre o visitante e o anfitrião, de acordo com The Ministry Of Tourism Of New Zeland (2008).

É preciso considerar que a contribuição desse tipo de turismo alternativo é marcante. Muzaini (2005) pondera neste sentido alertando que, mochileiros tradicionais costumam se colocar no mesmo patamar da comunidade receptora e costumam não considerar a própria cultura superior ou inferior à cultura visitada. Assim, criam uma harmonia entre o visitante e os nativos: “o propósito mais elevado do turismo é aproximar pessoas que vivem em diferentes locais e países, pois isso aumenta a compreensão e a apreciação, que constroem um mundo melhor para todos” (GOELDNER; RITCHIE; MCINTOSH, 2002, p.191).

Henrique Ruckert Heldt

REFERÊNCIAS

AOQUI, Cássio. Desenvolvimento do segmento backpacker no Brasil sob a ótica do marketing de turismo. São Paulo: USP, 2005. Disponível em: <http://www.dadosefatos.turismo.gov.br/export/sites/default/dadosefatos/espaco_academico/ premio_mtur/downloads_premio_FGV/Grad1o_lugar_Cassio_Aoqui_monografia.pdf >. Acesso em: 12 jun. 2016.

BASE. 2010. Disponível em: <www.stayatbase.com>. Acesso em: 07 jun. 2016.

GOELDNER, C. R.; RITCHIE, J. R. B.; MCINTOSH, R. W. Turismo: princípios, práticas e filosofias. Porto Alegre: Bookman, 2002.

KRIPPENDORF, Jost. Sociologia do turismo: para uma nova compreensão do lazer e das viagens. Rio de Janeiro: Aleph, 2001.

MALL, Dan. Atraia mais visitantes. Revista W. São Paulo, n. 106, p. 26-31, maio 2009.

MURPHY, Laurie. Exploring Social Interactions of Backpackers. Anais. Townsville, v. 28, n. 1, Universidade James Cook, 2001. Disponível em: <http://researchonline.jcu.edu.au/13074>. Acesso em: 12 jun. 2016.

MUZAINI, Hanzah. Backpacking Southeast Asia: Strategies of “looking local”. Anais. Durham, v. 33, n. 4, Universidade de Durham, 2007. Disponível em: <http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0160738305001222>. Acesso em: 12 jun. 2016.

OLIVEIRA, Rui José de. Turismo backpacker: estudos dos viajantes internacionais no Brasil. In: Revista de Cultura e Turismo. Ihéus, ano 1, n. 1, UESC, jan. 2008. Disponível em: <http://www.uesc.br/revistas/culturaeturismo/edicao2/artigo5.pdf>. Acesso em: 12 jun. 2016.

RUSCHMANN, Doris Van de Meene. Turismo no Brasil: análise e tendências. São Paulo: Manole, 2002.

SCHEYVENS, Regina. Backpacker tourism and third world development. Anais. Palmerston North, v. 29, n. 1, Universidade de Massey, 2002. Disponível em: <http://www.academia.edu/12081518/Backpacker_Tourism_and_Third_World_Development>. Acesso em: 12 jun. 2016.

SORENSEN, Anders. Backpacker Ethnography. Anais. Copenhague, v.30, n. 4, Centro Regional de Pesquisa em Turismo, 2003. Disponível em: <http://www.academia.edu/12081518/Backpacker_Tourism_and_Third_World_Development>. Acesso em: 12 jun. 2016.

THE MINISTRY OF TOURISM OF NEW ZEALAND. 2008. Disponível em: <www.tourism.govt.nz>. Acesso em: 04 jun. 2016.

TOURISM AUSTRALIA. 2008. Disponível em: <www.tourism.australia.com>. Acesso em: 07 jun. 2016.

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