Chegou a vez dos índios hoteleiros

Chegou a vez dos índios hoteleiros

O Brasil foi descoberto pelos portugueses: “por Pedro Álvares Cabral em abril de 1500. Esse fato constitui um dos episódios de expansão marítima portuguesa, iniciada em princípios do século XV” (FAUSTO, 1996, p. 9), antes essas terras eram habitadas pelos índios e com a chegada dos europeus foram sendo obrigados a seguir as regras impostas e assim sucessivamente dominados pelos portugueses.

Uma forma excepcional de resistência dos índios consistiu no isolamento, alcançado através de contínuos deslocamentos para regiões cada vez mais pobres. Em limites muito estreitos, esse recurso permitiu a preservação de uma herança biológica, social e cultural. Mas, no conjunto, a palavra “catástrofe” é mesmo a mais adequada para designar o destino da população ameríndia. Milhões de índios viviam no Brasil na época da conquista e apenas cerca de 250 mil existem nos dias de hoje. (FAUSTO, 1996, p. 22).

Os povos indígenas que conseguiram sobreviver à conquista dos portugueses vivem hoje isolados ou inseridos na sociedade moderna imposta pelos europeus. Alguns continuam com seus costumes e vivendo da maneira que seus antepassados lhe ensinaram, de uma forma igual de antes que os portugueses chegassem no Brasil. “Os grupos tupis praticavam a caça, a pesca, a coleta de frutas e a agricultura, […]”. (FAUSTO, 1996, p. 20). Outros foram submetidos a viver da forma dos europeus que destruíram suas culturas e obrigaram a seguir o molde de vida imposto por eles. Assim aconteceu o processo de mestiçagem que é o cruzamento entre em homem branco e um índio.

Os índios que se submeteram ou foram submetidos sofreram a violência cultural, as epidemias e mortes. Do contato com o europeu resultou uma população mestiça, que mostra, até hoje, sua presença silenciosa na formação da sociedade brasileira. (FAUSTO, 1996, p. 22). E alguns índios encontram uma maneira de viver na sociedade moderna utilizando suas culturas ancestrais aproveitando-se do turismo para ganhar dinheiro e assim poder se sustentar. “A verdade é que cada vez mais os povos indígenas têm pensado na atividade turística como mais uma alternativa sustentável de desenvolvimento local empreendida a partir de critérios estabelecidos pelos próprios grupos étnicos” (LEAL, 2007, p. 19). É também uma forma de resgatar sua cultura e transmiti-la para as pessoas e garantir uma existência em um “cenário desigual”.

Dentro destas perspectivas, os indígenas passam de meros receptores passivos de fluxos turísticos para empreendedores e co-participantes da estrutura oficial turística (LEAL, 2007, p. 20-21). Mais do que isto, o turismo passa a se configurar como reforço da etnicidade e revitalização cultural.

A atratividade turística está centrada no interesse do turista em ter acesso à cultura do povo indígena, partindo do ambiente onde vivem, suas tradições, crenças e costumes. Como explica Leal (2007, p. 22), “a autenticidade é a mola propulsora da visitação turística, sendo essa um mecanismo de manipulação dessas populações, a partir da utilização de símbolos que conferem ao grupo distinção, tradição e prestígio diante dos fluxos turísticos”.

Grünewald (2003) relata experiência bem-sucedida ocorrida na Reserva Indígena da Jaqueira, em Coroa Vermelha na Bahia, onde índios Pataxós, através da criação da Associação Pataxó de Ecoturismo, acordaram com empresas de turismo para que visitantes pudessem conhecer atividades cotidianas indígenas como a prática da sua medicina, o relato de lendas, a culinária típica e a confecção do artesanato.

Latorre (2014) escreve sobre as atividades turísticas no estado amazônico do Acre, na aldeia Mutum, dos índios Yawanawás, que convivem anualmente com 50 turistas na Festa Mariri Yawanawá, “cuja programação é de cinco dias e cinco noites dedicadas à cura, dança, música e manifestações culturais e espirituais”.

Valadares (2016)  coloca em evidência investimentos do Ministério do Turismo brasileiro no norte do estado da Paraíba, mais especificamente junto às Trilhas dos Potiguaras para o desenvolvimento turístico regional. “O local abriga hoje 32 aldeias e mais de 20 mil representantes da etnia”.

Exemplos como estes demonstram a busca pela expansão de um turismo étnico nacional, capaz de explorar a enorme diversidade indígena brasileira, sobretudo, a de aspectos mais selvagem e diversa.

Giuliano De Camillis

REFERÊNCIAS

FAUSTO, Boris. História do Brasil: história do Brasil cobre um período de mais de quinhentos anos, desde as raízes da colonização portuguesa até nossos dias. 1996. Disponível em: http://limendi.com.br/novo/wp-content/uploads/2015/10/historiadobrasil.pdf. Acesso em: 16 abr. 2016.

GRÜNEWALD, Rodrigo de Azevedo. Turismo e etnicidade. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 9, n. 20, p.141-159, out. 2003. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/ha/v9n20/v9n20a07>. Acesso em: 16 abr. 2016.

LATORRE, Julia. Índios Yawanawás, no Acre, recebem turistas para vivência espiritual na Amazônia. Revista Viagem. 08 maio 2014. Disponível em: <http://viajeaqui.abril.com.br/materias/indios-yawanawas-do-acre-recebem-turistas-para-vivencia-espiritual-na-amazonia>. Acesso em: 16 abr. 2015.

LEAL, Rosana Eduardo da Silva. O turismo desenvolvido em territórios indígenas sob o ponto de vista antropológico. Caderno Virtual de Turismo, Rio de Janeiro, v. 7, n. 3, UFRJ, 2007.

VALADARES, Carolina. Trilhas dos Potiguaras: conheça o novo produto turístico na Paraíba. Ministério do Turismo. 08 abr. 2016. Disponível em: <http://www.turismo.gov.br/component/content/article.html?id=6082 >. Acesso em: 16 abr. 2016.

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