Comensalidade pomerana: hospitalidade com identidade

Comensalidade pomerana: hospitalidade com identidade

Os pomeranos chegaram ao Brasil por volta de 1859 e trouxeram seus costumes, hábitos, festividades, rituais, como também a sua religião. Procuraram manter, no Brasil, suas tradições. Entre elas está a comida pomerana. Schmidt e Farias (2015, p.2) esclarecem que ela: “não está ligada somente à necessidade de fornecer nutrientes ao corpo, mas possui significados, está dotada de histórias e relaciona-se ao cotidiano e às diversas festividades e rituais deste povo”.

Quando se fala de comida não necessariamente se fala de alimento, (DAMATTA, 2001 apud Schmidt; Farias, 2015, p.3) pois

ao diferenciar alimento e comida, DaMatta destaca que o alimento é tudo aquilo que pode ser ingerido para manter uma pessoa viva, enquanto a comida é tudo que se come com prazer, de acordo com as regras sagradas de comunhão e comensalidade. O autor faz a comparação de que o alimento é como uma grande moldura, enquanto a comida é o quadro, ou seja, aquilo que foi valorizado e escolhido.

Pode-se dizer que compartilhar a mesa, ou então a refeição com alguém é uma das formas mais reconhecidas de hospitalidade, a qualquer tempo e nas mais variadas culturas. “Comer junto, então, tem um significado ritual e simbólico muito superior à simples satisfação de uma necessidade alimentar”. (BOUTAUD, 2004 apud Reis; Novembre; Rejowski, 2014, p. 5).

Neste sentido, os pomeranos imigrantes trouxeram consigo rituais, pertencentes a sua cultura, que são criações sociais com questões e dilemas da formação social, chamando a atenção para os aspectos da realidade social.

Contribuindo para este pensamento, baseado em Carneiro (2005), Schmidt e Farias (2015, p. 12) esclarecem que: […] comer está na origem da socialização pelo fato de ter sido nas formas coletivas de se obter a comida que a espécie humana desenvolveu utensílios culturais diversos e até mesmo a própria linguagem.

Assim, comer não é um ato solitário ou autônomo do ser humano, mas sim um ritual de comensalidade constituído pela prática de se comer junto, partilhando a comida e atribuindo sentido aos atos da partilha.

As relações sociais, que envolvem o ato de comer, começam desde a plantação, produção de alimentos até a organização das festas, pois para os pomeranos a reciprocidade, a ajuda e a solidariedade que existe entre a comunidade os ajudam a superar as dificuldades, seja nas festas, como batizados, confirmações e principalmente nos casamentos, ou em outros trabalhos com maior esforço (SCHMIDT; FARIAS, 2015, p. 13).

Abdala (2012, p. 8) considera que a dádiva e a reciprocidade fazem parte da hospitalidade e afirma:

As sociedades exercitam a dádiva e a reciprocidade como manifestação da hospitalidade de forma enraizada e constante. Estas manifestações talvez sejam uma das expressões maiores de civilidade, apaziguadora de ânimos, aparadora de arestas e diferenças entre os indivíduos e as sociedades.

Na verdade, a reciprocidade durante a realização dos serviços e a troca de alimentos é o que destaca a comida como sendo mediadora nas relações sociais, fortalecendo e nutrindo estas relações. Conforme Schmidt e Farias (2015, p. 18-19):

A origem do ato de troca e reciprocidade de comida se deu devido às necessidades materiais e financeiras que os pomeranos passaram nos primórdios da vivência no Brasil, o que levou a comida a ser moeda de troca por muito tempo. […] as trocas eram mais comuns no passado em que alimentos e dinheiro eram escassos nas comunidades […] a comida era trocada por diferentes contrapartidas, sendo exemplos à troca de farinha ou um quilograma de banha por um dia de serviço ou ainda a troca de um tipo de comida por outro que a família não produzia e a troca de sementes entre as famílias.

Porém, baseado em Sabourin (2008), Schmidt e Farias (2015, p. 20) revelam que a a reciprocidade difere da troca, pois cria valores éticos e afetivos, implicando na preocupação com o outro, buscando estabelecer a paz, confiança, amizade e compreensão mútua entre os envolvidos. A reciprocidade, que se materializa entre os pomeranos por meio da doação de itens alimentícios, acontece com mais frequência entre vizinhos próximos […].

Considerando os costumes dos pomeranos, estes visitavam parentes e amigos aos domingos para conversar e se divertirem, onde também ocorriam as trocas, geralmente de comidas, e também lembrando a reciprocidade, pois a troca era de ambas as partes, da visita e do anfitrião. Schmidt e Farias (2015, p. 21) descrevem: “a dádiva recebida por uma visita quase sempre tem a sua contrapartida que é feita por meio do “bem receber” e “bem servir” […]”.

Baseado em Telfer (2004), Araújo, Fonseca e Silva Filho (2013, p.7) relacionam a hospitalidade entre o anfitrião e o hóspede o que vem a corroborar com os costumes dos pomeranos:

a hospitalidade passa por motivos pessoais e pela qualidade do relacionamento instituída entre anfitrião e hóspede. O desejo e o prazer de receber, a hospitalidade, é considerada genuína ou não se o interesse do anfitrião em receber proporcionar bem-estar e prazer mútuo a ambos.

Em síntese, pode-se considerar a hospitalidade absolutamente dependente da cultura onde ela é praticada (CAMPOS, 2008). As regras e rituais de socialização são dependentes das relações de reciprocidade. Em comunidades como a dos pomeranos, ser hospitaleiro é, acima de tudo, saber compartilhar valores no grande grupo, o que estabelece as legítimas identidades de pertencimento (POLLACK, 1992).

Mirana Maria Domingues Troglio

REFERÊNCIAS

ABDALA, Alfredo Ricardo. Cultura e comensalidade: o lugar de memória árabe no centro de São Paulo. In: IX SEMINÁRIO DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO EM TURISMO. Anais. São Paulo: Universidade Anhembi Morumbi, 30 ago. a 01 set. 2012. Disponível em: <http://www.anptur.org.br/novo_portal/anais_anptur/anais_2012/admin/arquivo/36.pdf>. Acesso em: 14 maio 2016. ARAÚJO, Vera Cristina de; FONSECA, Filipe Fernandes da; SILVA FILHO, José Neves da. A hospitalidade no planejamento de cardápio. In: VII FÓRUM INTERNACIONAL DE TURISMO DO IGUASSU. Anais. Foz do Iguaçu: Festival de Turismo das Cataratas do Iguaçu, 12 a 14 jun. 2013. Disponível em: <http://festivaldeturismodascataratas.com/wp-content/uploads/2014/01/1.-A-HOSPITALIDADE-NO-PLANEJAMENTO-DE-CARD%C3%81PIO.pdf>. Acesso em: 14 maio 2016.

CAMPOS, Sinara Rafaela. Os cinco sentidos da hospitalidade. Observatório de Inovação e Turismo. Rio de Janeiro: FGV, v. III, n. 1, 2008. Disponível em: <http://bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/oit/article/view/5694/4408>. Acesso em: 14 maio 2016.

POLLACK, Michael. Memória e identidade social. Estudos Históricos. Rio de Janeiro, v. 5, n. 10, 1992. Disponível em: <http://www.hugoribeiro.com.br/biblioteca-digital/Pollak-memoria_e_identidade_social.pdf>. Acesso em: 14 maio 2016.

REIS, Juliana Trombeta; NOVEMBRE, Michele Coelho; REJOWSKI, Mirian. Bebidas na formação superior em gastronomia: realidade de dois cursos de tecnologia na cidade de São Paulo. In: XI SEMINÁRIO DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO EM TURISMO. Anais. Maceió: UECE, 24 a 26 set. 2014. Disponível em: <http://www.anptur.org.br/anptur/anais/v.10/Anais/DFP3/046.pdf>. Acesso em: 14 maio 2016.

SCHMIDT, Adriele; FARIAS, Rita de Cássia Pereira. A comida e a sociabilidade na cultura pomerana. Tessituras. Pelotas, v. 3, n. 2, p. 195-218, jul./dez. 2015. Disponível em: <https://periodicos.ufpel.edu.br/ojs2/index.php/tessituras/article/view/5928> Acesso em: 13 maio 2016.

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