Conceitos inovadores mobilizam o mercado da hospitalidade

Conceitos inovadores mobilizam o mercado da hospitalidade

Os novos conceitos de hotéis pelo mundo são consequência, entre outros fatores, de uma necessidade mercadológica de sobrevivência, como Sundbo, Orfila-Sintes e Sørensen (2007) observam descrevendo o ato de inovar como uma condição fundamental para a sobrevivência das organizações, inseridas em um ambiente altamente competitivo e em transformação constante. Avanços tecnológicos e competitividade aceleram o ritmo de mudança contínua, seja para fins lucrativos, satisfação, valor social, cultura organizacional e/ou eficiência nos processos. Nickel, Nicolitsas e Dryden (1997) argumentam que o aumento da eficiência econômica é causado pelo aumento da concorrência e Porter (1992) destaca que para ter competitividade é extremamente necessário inovar nos processos de produção.

Hall (2009) alega que, apesar de muitos pesquisadores considerarem esta indústria razoavelmente inovadora, aplicações neste sentido no setor turístico são um fator em ascensão. Porém, inovar não é um empreendimento simples. Há certas resistências por parte dos gestores por se tratar de um processo que necessita de capital, competência, tempo e funcionalidade. Há alguns estudos de casos que abordam outros aspectos regionalistas, como analisados em Sergipe: mão-de-obra desqualificada e falta de comprometimento dos funcionários (Sacramento e Teixeira, 2014a; 2014b).

A princípio, a fim de esclarecer o conceito de inovação, Schumpeter (1982) diz que a inovação caracteriza-se pela recombinação de recursos existentes e pode ocorrer por meio da criação de novos produtos ou métodos de produção, criação de novos mercados consumidores, desenvolvimento de novas fontes de fornecimento de matéria-prima e alterações na estrutura organizacional, criando, entre outros fatores, geração de ganhos econômicos, de valor social, também destacados por Tidd, Bessant e Pavitt (2008), e vantagem competitiva.

A necessidade de inovar parte do pressuposto de sobrevivência, provenientes da concorrência, mas também pode se dizer que fatores econômicos alavancam esta abordagem. Nos dias atuais, o mundo e, principalmente, o Brasil, passa por um momento delicado em termos econômicos, políticos e sociais, e o mercado segue essas tendências. Tanto que a maior rede de hotéis do Brasil, a Accor, evolui através da mudança de foco. (SANDRINI, 2010).

Mas a inovação não se passa somente pelo custo. Há outros conceitos de hotéis com ideias diferenciadas. Hotéis boutiques criaram processos organizacionais diferenciados, onde os serviços de café da manhã (o hóspede escolhe o café da manhã no check-in e este é levado ao quarto pela manhã, portanto sem salão) e lavanderia são terceirizados, logo não há cozinha nem lavanderia, compondo uma estrutura mais enxuta e dinâmica, como o hotel Gigli d’Oro em Roma, Itália. (GIGLI D’ORO, 2016)

Outro aspecto inovador é a sustentabilidade, também muito abordado por pesquisadores. Barbieri et al. (2010) destaca este aspecto oriundo das pressões competitivas, intimando organizações a adotar práticas de melhorias com responsabilidade social e ambiental. Sacramento e Teixeira (2014) abordam, em seu estudo de caso, que empreendedores citam a gestão descentralizada, a introdução de sistemas de gestão e as práticas inusitadas de marketing como inovações organizacionais. Há outros estudos que abordam a questão da aplicação de sistemas integrados, por, entre outros fatores, se tratar de algo complexo mas com grandes benefícios se corretamente aplicados, capazes de gerar vantagens competitivas (PAÇO; PÉREZ, 2013).

Portanto, para se adaptar a questões mercadológicas, competitividade e aspectos econômicos e sociais, os gestores e empreendedores da indústria hoteleira tem focado em inovações que agregam valor social ou riqueza (TIDD; BESSANT; PAVITT, 2008), os diferenciam dos concorrentes e até mesmo de serviços de hospedagem revolucionários como o site Airbnb, onde os hóspedes ficam em casas privadas a preços menores e o hotel citizenM em Londres, que, entre outros fatores, não possui uma equipe na recepção para o check-in. Este é feito através de uma máquina eletrônica em um minuto.

Conceitos inovadores mudaram a maneira de receber, hospedar, alimentar, entreter e despedir-se (Castelli, 2010). Atos hospitaleiros tradicionais ainda existem, mas cada vez mais se observa uma transformação de como esses atos são praticados. Seguindo o desenvolvimento da humanidade em uma era marcada por maior personalização de produtos e serviços e a fim de fugir do padrão e quebrar paradigmas, meios de hospedagem criam novas formas de surpreender os clientes, se diferenciando dos concorrentes e almejando patamares quase inigualáveis de conceitos inovadores, muitas vezes gerando ativos intangíveis.

Frederico Gollo

REFERÊNCIAS

BARBIERI, José Carlos et al. Inovação e sustentabilidade: novos modelos e proposições. Revista de Administração de Empresas. São Paulo, v. 50, n. 2, 2010.

CASTELLI, Geraldo. Hospitalidade: a inovação na gestão nas organiza-ções prestadoras de serviços. São Paulo: Saraiva, 2010.

GIGLI D’ORO Suits. 2016. Disponível em: <http://www.giglidorosuite.com/description.htm?cookieChecked=true>. Acesso em: 17 jun. 2016.

HALL, Colin Michael. Innovation and tourism policy in Australia and New Zealand: never the twain shall meet? Journal of Policy Research in Tourism Leisure and Events. [S.l.], n. 1, 2009. Disponível em: <https://www.academia.edu/152389/Innovation_and_Tourism_Policy_in_Australia_and_New_Zealand_Never_the_Twain_Shall_Meet>. Acesso em: 23 jun. 2016.

NICKEL, Stephen; NICOLITSAS, Daphne; DRYDEN, Neil. What makes firms perform well? European Economic Review. [S. l.], v. 41, n. 3-5, 1997. Disponível em: <https://ideas.repec.org/p/cep/cepdps/dp0308.html>. Acesso em: 23 jun. 2016.

PAÇO, Cidália Leal; PÉREZ, Juan Manuel Cepeda. Utilização da metodologia DEA (Data Envelopment Analysis) para avaliar o impacto das TIC sobre a produtividade na indústria da hospitalidade. Via@. Varia, n. 1, jun. 2013. Disponível em: <http://viatourismreview.com/pt/2015/06/the-use-of-dea-data-envelopment-analysis-methodology-to-evaluate-the-impact-of-ict-on-productivity-in-the-hotel-sector>. Acesso em: 23 jun. 2016.

PORTER, Michael. Estratégia competitiva: técnicas para análise de indústrias e da concorrência. Rio de Janeiro: Campus, 1992.

SACRAMENTO, Patrícia Melo; TEIXEIRA, Rivanda Meira. Adoção de inovações em empresas de pequeno e médio portes: estudo de casos múltiplos em negócios hoteleiros na cidade de Aracaju. Organizações em contexto. São Bernardo do Campo, v. 10, n. 19, 2014a. Disponível em: <https://www.metodista.br/revistas/revistas-ims/index.php/OC/article/view/4360 >. Acesso em: 19 jun. 2016.

______. Implementação de ações inovadoras e empreendedorismo: estudo de múltiplos casos em empresas hoteleiras de pequeno porte. Caderno Virtual de Turismo. Rio de Janeiro, v. 14, n. 2, ago. 2014b. Disponível em: <http://www.ivt.coppe.ufrj.br/caderno/index.php?journal=caderno&page=article&op=view&path%5B%5D=874&path%5B%5D=398>. Acesso em: 17 jun. 2016.

SANDRINI, João. Accor vai abrir 100 hotéis Formule 1 no Brasil com franquias. 18 nov. 2010. Disponível em: <http://exame.abril.com.br/negocios/noticias/accor-vai-abrir-100-hoteis-formule-1-no-brasil-com-franquias>. Acesso em: 02 jun. 2016.

SCHUMPETER, Joseph. Teoria do desenvolvimento econômico. São Paulo: Abril Cultural, 1982.

SUNDBO, Jon; ORFILA-SINTES, Francina; SØRENSEN, Flemming. The innovative behaviour of tourism firms: comparative studies of Denmark and Spain. Research Policy. Dinamarca, v. 36, 2007.

TIDD, Joe; BESSANT, John; PAVITT, Keith. Gestão da inovação. Porto Alegre: Bookman, 2008.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.