Considerações sobre o racismo brasileiro para a hospitalidade

Considerações sobre o racismo brasileiro para a hospitalidade

Existem questões que levam muito tempo para serem plenamente entendidas e aceitas pela sociedade. O racismo é uma delas. Já em 1994, Nelson Mandela disse que “ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, ou por sua origem, ou sua religião”. Ele também afirma que as pessoas são, ao longo de seu crescimento, ensinadas a odiar. Através desse ensinamento errôneo, vive-se hoje em um país onde o racismo implantou-se. Enquanto o Brasil era colônia, índios eram vistos somente como mão-de-obra a ser explorada e, posteriormente, enquanto império, a prática de trazer negros da África para cá como escravos era muito comum. Naquela época, em grande parte do mundo, acreditava-se que pessoas de origem indígena ou negra eram, de fato, raças inferiores, desmerecedoras dos confortos e mordomias da população branca. Ainda hoje, esse pensamento não foi completamente extinto.  O que Milton Santos (2000) concorda ao afirmar que “no caso brasileiro, o corpo da pessoa também se impõe como uma marca visível e é frequentemente privilegiada a aparência como condição primeira de objetivações e de julgamento, criando uma linha demarcatória, que identifica e separa […]”.

Para Santos (2000), mesmo hoje, a sociedade julga a pessoa pela sua cor e pela sua descendência, ignorando por completo suas experiências e conquistas.

Na hotelaria, por exemplo, são comuns casos de indivíduos barrados na porta de hotéis por, de acordo com seguranças e porteiros, “não pertencerem àquele local”. Em 2013 houve um caso no qual uma psicóloga negra foi impedida de ter acesso à cobertura de um hotel cinco estrelas no Rio de Janeiro (AFROPRESS, 2013).

Casos como esse são mais frequentes do que se imagina, tanto para negros quanto para índios. Santos (2000) chama esses fenômenos de “apartheid à brasileira”, fazendo referência à segregação ocorrida no século passado na África do Sul.

É fato que a hotelaria está diretamente ligada à hospitalidade, que, por sua vez, está baseada nos seguintes fatores: receber, hospedar, alimentar, entreter e despedir-se (CASTELLI, 2010). No momento em que a psicóloga negra foi impedida de entrar no hotel, o primeiro processo da hospitalidade (receber) foi quebrado, impedindo que os fatores seguintes ocorressem. Ou seja, o racismo está ainda tão impregnado na cultura brasileira que cria um gigante paradoxo na hotelaria, indo contra a ideia de que a hospitalidade é a bandeira verde de uma cruzada contra a intolerância e o racismo (DERRIDA, 1999 apud Camargo, 2002, p. 11). Não há como negar, portanto, que o ato de julgar uma pessoa com base na sua aparência e descendência é uma ação corriqueira no Brasil. Para que o país consiga crescer e acabar com a grande desigualdade cultural e socioeconômica que está espalhada pelo seu território, é preciso abolir o pensamento de que são as características fenotípicas que definem aonde um indivíduo irá chegar, tanto pessoal quando profissionalmente. Neste sentido, Coimbra Jr. e Santos (2000) defendem a imprescindibilidade dos estudos sobre esse tipo de desigualdade como forma de melhorar a situação atual. Ao invés de ensinar o racismo aos brasileiros, é preciso ensinar que todos, independente de cor e raça, têm os mesmos direitos de cidadãos, o que inclui o direito de ir e vir (DIONISIO, 2015), cuja base é a permissão de locomoção sem o risco de privação.

Mônica Villas Bôas

REFERÊNCIAS

AFROPRESS. Psicóloga diz ter sido barrada à cobertura do Hotel Pestana/Rio. 2013. Disponível em: <http://www.afropress.com/post.asp?id=14962>. Acesso em: 14 abr. 2016.

CACHEIA! [Sem título]. [s.d.]. Il. color. Disponível em: <http://cacheia.com/2015/11/porque-feminismo-negro>. Acesso em: 19 abr. 2016.

CAMARGO, Luíz Octávio de Lima. Turismo, hotelaria e hospitalidade. São Paulo: USP, 2003. Disponível em: <file:///C:/Users/User/Downloads/63576-83342-1-PB.pdf>. Acesso em: 16 abr. 2016.

CASTELLI, Geraldo. Hospitalidade: a inovação na gestão das organizações prestadoras de serviços. São Paulo: Saraiva, 2010.

COIMBRA JR., Carlos Everaldo Alvares; SANTOS, Ricardo Ventura. Saúde, minorias e desigualdades: algumas teias de inter-relações, com ênfase nos povos indígenas do Brasil. Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v.5, n. 1, p. 125-132, 2000. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-81232000000100011>. Acesso: 14 abr. 2016.

DIONISIO, Silvia Hermelinda Rodrigues. Direito de ir e vir na sociedade brasileira. Conteúdo Jurídico. Brasília, 21 maio 2015. Disponível em: <http://www.conteudojuridico.com.br/?artigos&ver=2.53479&seo=1>. Acesso em: 16 abr. 2016.

MANDELA, Nelson. Um longo caminho para a liberdade. São Paulo: Siciliano, 1994. SANTOS, Milton. Ser negro no Brasil hoje. 2000. Disponível em: <http://antroposmoderno.com/antro-articulo.php?id_articulo=527>. Acesso em: 14 abr.

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