Gastronomia consciente em apoio ao turismo sustentável

Gastronomia consciente em apoio ao turismo sustentável

O clima global está em metamorfose constante. Ele levou bilhões de anos para estabilizar-se ao ecossistema habitável e equilibrado que se possui hoje. O ser humano, por sua vez, é parte ativa desse ecossistema e, desde que o aquecimento global passou a ser legitimamente reconhecido pela maior parte da sociedade científica internacional (PNAS, 2001), a grande questão em debate passou a ser os impactos que ele, através de suas desmedidas ações contínuas, tem ocasionado, alterando significativamente a harmonia dos ecossistemas. As pesquisas mais recentes afirmam que o aquecimento global é causado, em sua maior parte, pela atividade humana e pelas altas emissões de gases que aumentam o efeito estufa (HANSEN et al., 2006). O modo de vida conturbado do ser humano passa a ser considerado agora como fator gerador de consequências determinantes para a continuidade da existência de todo o conjunto de espécies existentes que vivem de forma dependente em permanente simbiose.

Nestas perspectivas, é possível citar o turismo como exemplo da parte ativa do ecossistema moderno e pós-moderno em que vivemos. De acordo com a Organização Mundial de Turismo, esta atividade, que gera receita anual superior ao PIB de alguns países desenvolvidos, possui grandes impactos climáticos, já que os meios de transportes utilizados, a infraestrutura e os serviços consomem recursos e produzem reconhecíveis impactos ambientais. O turismo sustentável vem ao encontro dessa demanda vital de satisfazer às necessidades dos turistas e dos destinos turísticos, protegendo-os para o futuro (UNWTO, 2012). Especificamente no que diz respeito a gastronomia nos contextos turísticos ligados as grandes concentrações urbanas, a oferta e a manipulação de alimentos estão sujeitos aos hábitos sociais e culturais, tanto das populações locais como dos públicos recepcionados. Assim, o melhor entendimento das práticas alimentares destas sociedades notoriamente urbanizadas e industrializadas, implica em primeiramente compreender as dinâmicas envolvidas fruto, sobretudo, das mudanças sociais que se intensificaram nas últimas décadas. Paralelo a estas transformações, é verificável que a indústria alimentar foi capaz de gerar mais praticidade ao modo de vida das pessoas (FRANÇA et al., 2012).

Focar a visão em direção às cozinhas é de suma importância quando se deseja obter a compreensão das culturas alimentares das diferentes sociedades. A ideia de uma cozinha sustentável vem colocando em evidência algumas questões importantes a se pensar nos espaços culinários das sociedades contemporâneas. A gastronomia como um produto, ou mesmo um atrativo de uma determinada localidade, é muito importante do ponto de vista turístico, pois apresenta novas possibilidades, na verdade, não tão novas, mas nem sempre bem exploradas, que são as diversas formas de turismo voltadas para as características gastronômicas de cada região (FURTADO, 2004).

Neste sentido, passa a ser importante se pensar em uma sustentabilidade do consumo alimentar em contextos turísticos, buscando equacionar e promover a diminuição de impactos ecológicos desfavoráveis em estabelecimentos gastronômicos, através do porcionamento adequado dos ingredientes, da diminuição da quantidade de resíduos e da minimização da produção. Desta forma, corrigindo a oferta a demanda, e criando reais possibilidades de se reduzir desperdícios, também em função do melhor aproveitamento das matérias primas e, consequentemente, pela redução dos custos e tempo gastos na operação do restaurante. (NRCD, 2010) 

Ampliando o debate para a perspectiva da hospitalidade, o ato de alimentar, uma das condições fundamentais apontadas por Castelli (2010) passa a adquirir uma nova dimensão no contexto da prática gastronômica ecologicamente correta. Neste ínterim, restaurantes, por exemplo, precisam encarar sua ação fundamental de forma cada vez mais conectada aos preceitos da melhor prática ambiental. Esta afirmação tem em seu escopo uma grande complexidade, partindo do pressuposto que o comensal, ao usufruir do serviço gastronômico, demonstra acreditar no melhor julgamento do estabelecimento em ofertar não apenas boa culinária, mas também refeições produzidas com alimentos adequados e não apenas em termos de qualidade, mas também de boa procedência.

Contudo, uma boa origem significa alimentos saudáveis no amplo sentido da palavra: corretamente produzidos e que considerem exigentes padrões de preservação ambiental. (PUNTEL; MARINHO, 2015)

Desta forma, praticar a melhor hospitalidade gastronômica no contexto turístico passa a implicar no conhecimento dos mais modernos e ecologicamente corretos processos ligados a engenharia de alimentos (BERTOLINI; POSSAMAI, 2005). Neste caminho, os estabelecimentos gastronômicos não podem deixar de considerar as formas como os insumos são produzidos, as suas possibilidades de conservação e as formas mais apropriadas de processamento e preparo das refeições.

É nesta orientação que passa ser possível alcançar uma prática hospitaleira que transcende os conceitos usuais ligados à prática gastronômica.

Vinícius Lorenzini Lima

REFERÊNCIAS

BERTOLINI, Geysler Rogis Flor; POSSAMAI, Osmar. Proposta de Instrumento de mensuração do grau de consciência ambiental, do consumo ecológico e dos critérios de compra dos consumidores. Revista de Ciência e Tecnologia. Piracicaba: UNIMEP, v. 13, n. 25-26, 2005. Disponível em: <http://www.unimep.br/phpg/editora/revistaspdf/rct25art02.pdf>. Acesso em: 13 maio 2016.

CASTELLI, Geraldo. Hospitalidade: a inovação na gestão nas organizações prestadoras de serviços. São Paulo: Saraiva, 2010.

FRANÇA, F. C. O. et al. Mudanças dos hábitos alimentares provocados pela industrialização e o impacto sobre a saúde do brasileiro. In: I SEMINÁRIO CULTURA E ALIMENTAÇÃO NA BAHIA. Anais. Feira de Santana: UEFS, 2012. Disponível em: <http://www2.uefs.br:8081/cer/wp-content/uploads/FRANCA_Fabiana.pdf>. Acesso em: 13 maio 2016.

FURTADO, Fábio Luiz. A Gastronomia como produto turístico. Revista Turismo. 2004. Disponível em: <http://www.revistaturismo.com.br/artigos/gastronomia.html>.  Acesso em: 11 maio 2016.

HANSEN, J. et al. Global temperature change. PNAS, v. 103, n. 39. Washington D.C., 2006. Disponível em: <http://www.pnas.org/content/103/39/14288.full>. Acesso em: 11 maio 2016.

PNAS. Joint Science Academies’ Statement: Global response to climate change. 2001. Disponível em: <http://nationalacademies.org/onpi/06072005.pdf>. Acesso em: 11 maio 2016.

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