Hospitalidade aplicada a pacientes com transtornos mentais

Hospitalidade aplicada a pacientes com transtornos mentais

A reforma psiquiátrica ocorrida no Brasil na década de 70 (AMARANTE, 1995), resultou no retorno dos portadores de síndromes mentais para suas casas e comunidades. Segundo Pereira (2007), este retorno ocasionou a necessidade de criação de centros de apoio aos familiares no processo do tratamento e assistência dos pacientes. O autor cita ainda que as equipes são formadas por médicos psiquiatras, psicólogos e agentes sociais, que realizam esse serviço importante para o tratamento e auxilio dos enfermos.

Segundo Amarante (1995), a reforma psiquiátrica foi um processo político e social de grande abrangência, formado por atores, instituições e forças de diferentes origens e que refletiu em vários territórios, nos governos federal, estadual, municipal, nos serviços de saúde, nos conselhos profissionais, nas associações de pessoas com transtornos mentais, junto aos familiares dos enfermos e nos movimentos sociais.

Tenório (2002, p. 32) complementa:

na segunda metade da década de 1970, no contexto do combate ao Estado autoritário, emergem as críticas à ineficiência da assistência pública em saúde e ao caráter privatista da política de saúde do governo central. Além disso, surgem as denúncias de fraude no sistema de financiamento dos serviços e, o que é mais importante para o posterior movimento da reforma, as denúncias do abandono, da violência e dos maus-tratos a que eram submetidos os pacientes internados nos muitos e grandes hospícios do país.

Para entender o atual enquadramento das políticas estatais para o atendimento psiquiátrico é fundamental conhecer a Estratégia Saúde da Família o Programa Saúde da Família definidos pelo SUS – Sistema Único de Saúde – do governo federal:

a Estratégia Saúde da Família (ESF) visa à reorganização da atenção básica no País, de acordo com os preceitos do Sistema Único de Saúde, e é tida pelo Ministério da Saúde e gestores estaduais e municipais como estratégia de expansão, qualificação e consolidação da atenção básica por favorecer uma reorientação do processo de trabalho com maior potencial de aprofundar os princípios, diretrizes e fundamentos da atenção básica, de ampliar a resolutividade e impacto na situação de saúde das pessoas e coletividades, além de propiciar uma importante relação custo-efetividade. (PORTAL DA SAÚDE – SUS, 2012)

O Programa Saúde da Família, segundo Souza (2007), vem aumentando o atendimento no território brasileiro, com relação à implementação de ações direcionadas à população geral, com programas e ações especiais. Desta maneira, podendo dar maior atenção a necessidades especifica das comunidades.

Conforme Junqueira e Pillon (2011), a junção da saúde mental com a saúde da família é indispensável.

Segundo Schrank e Olschowski (2010) as equipes da Estratégia Saúde da Família, costumam ter com sua clientela uma relação muito diferente daquela que se tem nas práticas mais tradicionais de saúde, conversando com seus pacientes, conhecendo-os, tendo contato direto e indireto não só com seus sintomas e doenças, mas com as mais diferentes áreas de suas vidas, ocorrendo a prática de hospitalidade sem fins lucrativos, que resulta em um poderoso aliado nos tratamentos realizados pelo Programa de Saúde da Família, “o indivíduo sente-se genuinamente querido e bem-vindo, o que não é o mesmo que ser acolhido como um cliente a ser cobrado” (LASHLEY, 2004, p. 18).

Pereira (2007) evidencia que este programa vem se mostrando como um dos principais agentes de mudança relacionada à assistência em saúde mental, visto que torna possível uma maior aproximação entre os profissionais, a família e o enfermo – por consequência toda a comunidade. Segundo o autor, o maior contato é um recurso de grande importância, principalmente se tratando de confrontar com os agravos relacionados ao sofrimento psíquico, que vêm se mostrando muito frequentes, e ainda pouco tratados.

Então, passa a ser pertinente relacionar o que afirma Castelli (2010): a hospitalidade se refere à qualidade de um individuo ou local de ser hospitaleiro e não consiste apenas em receber o outro. O ato de hospedar e ser hospitaleiro são muito mais complexos que simplesmente receber o visitante; consistem na união e aproximação de culturas, costumes e pessoas diferentes. Assim, é possível ressaltar que a hospitalidade é uma relação de troca de valores entre aquele que acolhe e quem é acolhido.

Nesse sentido, implantar políticas de hospitalidade através do Programa Saúde da Família pode vir a ser um grande fortalecedor deste projeto fundamental para a saúde de milhares de brasileiros que sofrem com as mais diversas enfermidades mentais. Como cita Dias (2002, p. 98): “hospitalidade refere-se à boa acolhida, ao tratamento afável, cortês, amabilidade, gentileza”. Estes legítimos atos de bem-atender poderiam, portanto, servir de norte para a ação de todos agentes sociais ligados à saúde.

Henrique Ruckert Heldt

REFERÊNCIAS

AMARANTE, Paulo. Loucos pela vida: a trajetória da reforma psiquiátrica no Brasil. Rio de Janeiro: Fiocruz, 1995. Disponível em: <https://books.google.com.br/books?id=CNkXAwAAQBAJ&printsec=frontcover&dq=isbn:857541335X&hl=pt-BR&sa=X&ved=0ahUKEwiCkoa9mcbNAhWEjJAKHdziBg0Q6AEIHjAA#v=onepage&q&f=false>. Acesso em: 26 jun. 2016.

CASTELLI, Geraldo. Hospitalidade: a inovação na gestão das organizações prestadoras de serviços. São Paulo: Saraiva, 2010.

DIAS, Célia. Hospitalidade: reflexões e perspectivas. Barueri: Manole, 2002.

JUNQUEIRA, Marcelle Aparecida de Barros; PILLON, Sandra Cristina. A assistência em saúde mental na estratégia saúde da família: uma revisão de literatura. Revista de Enfermagem do Centro Oeste Mineiro. Divinópolis, v.1, n. 2, abr./jun. 2011. Disponível em: <http://www.seer.ufsj.edu.br/index.php/recom/article/view/28/124>. Acesso em: 26 jun. 2016.

LASHLEY, Conrad; MORRISON, Alison. Em busca da hospitalidade: perspectivas para um mundo globalizado. Barueri: Manole, 2004.

PEREIRA, Maria Alice Ornellas et al. Saúde mental no programa de saúde da família: conceitos dos agentes comunitários sobre o transtorno mental. Revista da Escola de Enfermagem. São Paulo: USP, v. 41, n. 4, dez. 2007. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0080-62342007000400005&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 19 jun. 2016.

PORTAL DA SAÚDE – SUS. Estratégia saúde da família. Brasília, 2012. Disponível em: <http://dab.saude.gov.br/portaldab/ape_esf.php>. Acesso em: 26 jun. 2016.

SCHRANK, Guisela; OLSCHOWSKY, Agnes. O centro de atenção psicossocial e as estratégias para inserção da família. Revista Escola Enfermagem. São Paulo: USP, v. 42, n. 1, mar. 2008. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0080- 62342008000100017&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 19 jun. 2016.

SOUZA, Aline de Jesus Fontineli et al. A saúde mental no programa de saúde da família. Revista Brasileira de Enfermagem. Brasília, v. 60, n. 4, ago. 2007. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/reben/v60n4/a06.pdf>. Acesso em: 19 jun. 2016.

TENÓRIO, Fernando. A reforma psiquiátrica brasileira, da década de 1980 aos dias atuais: história e conceitos. História, Ciências, Saúde. Manguinhos, v. 9, n. 1, jan./abr. 2002. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/hcsm/v9n1/a03v9n1.pdf>. Acesso em: 26 jun. 2016.

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