Hospitalidade em UTIs

Hospitalidade em UTIs

As dimensões de hospitalidade apontadas por Castelli (2010) – receber, hospedar, alimentar, entreter e despedir-se – se revelam particularmente complexas quando postas à prova no interior de uma UTI – Unidade de Terapia Intensiva. Em uma situação de saúde irreversível ou terminal, como garantir o acolhimento do doente em sua situação crítica?

Em estudo sobre a hospitalidade em ambientes hospitalares, Verbist (2006) diz que “pacientes” são clientes de saúde, estendendo esse título aos seus familiares. Considerando esse tipo de cliente e suas condições de estadia, o estudo relaciona hospitais com hotéis, ponderando as visões de Castelli (2006) e mostrando que o somatório de atividades desenvolvidas deve ter a humanização no relacionamento entre corpo clínico e pacientes como preponderante norte de hospitalidade. As UTIs foram um avanço no conhecimento médico, disponibilizando novas tecnologias à saúde e à qualificação dos cuidados de enfermagem. É um lugar onde é possível aumentar chances de recompor condições estáveis do doente e aumentar chances de recuperação (PEREIRA; SANTOS, 2013). Nesse contexto, parece não ser considerada a real dimensão/perspectiva da situação de vida dos usuários: ali mantidos apenas como moribundos, o que demonstra distância da conscientização das representações da morte e do processo de morrer como parte da vida (VICENSI, 2015).

Na verdade as UTIs precisam estabelecer uma relação mais humanizada/hospitaleira com os pacientes dentro de uma perspectiva de transição para as suas redenções. Não se pode, em nenhum caso, se deixar de manter as perspectivas de recuperação: a conquista da estabilidade dos diferentes quadros e/ou controle das emergências; a condução para estruturas semi-intensivas até aos bons cuidados de uma internação simples.

Portanto, resta ponderar onde se estabelece a visão de hospitalidade, considerando o doente e a sua subjetividade. Pensar como o doente em uma UTI – se estivesse pleno de suas faculdades mentais, gostaria de viver suas últimas horas ou dias: em um lugar repleto de desconhecidos, alguns deles em agonia, em meio a sons, rostos, cheiros e gemidos estranhos, em um lugar técnico e mecanizado/computadorizado, sem o carinho da mão de um ser querido?

Talvez médicos experientes possam iniciar a reversão dessa cultura, assumindo, diante de seus clientes de saúde, que uma UTI é feita para ser um lugar de viver e não de morrer.

Souza, Barili e Azeredo (2014) contribuem constatando que “durante o processo de morrer […] foi demonstrado pelos familiares a importância de estar junto da pessoa amada”. Portanto, há que se repensar a cultura restritiva das UTIs quando a situação de saúde do familiar for irreversível:  o contato com os familiares precisa ser redimensionado para que se estabeleça a melhor performance da última dimensão de hospitalidade apontada por Castelli (2010): despedir-se.

Leslie Neto Mendes

REFERÊNCIAS

CASTELLI, Geraldo. Hospitalidade: a inovação na gestão das organizações prestadoras de serviços. São Paulo: Saraiva, 2010.

______. Gestão hoteleira. São Paulo: Saraiva, 2006.

PEREIRA, Rita de Cássia Machado; SANTOS, Rosenilda Sousa dos. O enfermeiro frente aos dilemas éticos do fim da vida em unidade de terapia intensiva. Salvador: Atualiza, 2013. Disponível em: <http://bibliotecaatualiza.com.br/arquivotcc/EU/EU21/PEREIRA-rita-SANTOS-rosenilda.PDF>. Acesso em: 25 jun. 2016.

SOUZA, Thiele Lemos de; BARILI, Sofia Louise Santin; AZEREDO, Náira Selaimem Gaertner. Perspectiva de familiares sobre o processo de morrer em unidade de terapia intensiva. Texto & Contexto – Enfermagem. Florianópolis, v. 23, n. 3, jul./set. 2014. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-07072014000300751&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt>. Acesso em: 18 jun. 2016.

VERBIST, Cinthia Fusquine. A gestão da hospitalidade sob a perspectiva da humanização dos hospitais: um estudo de caso. Repositório da UCS. UCS: Caxias do Sul, 2006. Disponível em: <https://repositorio.ucs.br/xmlui/handle/11338/192>. Acesso em: 09 jun. 2016.

VICENSI, Maria do Carmo. Reflexões sobre a morte e morrer na UTI: a perspectiva do profissional.  Revista Bioética. Campos Novos, v. 24, n. 1, 2015. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1983-80422016000100064&lang=pt>. Acesso em: 24 jun. 2016.

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