O relacionamento da cultura japonesa com os estrangeiros

O relacionamento da cultura japonesa com os estrangeiros

Tendo em vista a internacionalização do turismo, crescente a cada ano, buscam-se cada vez mais características atrativas para cativar turistas regionais e, principalmente, estrangeiros. Mas qual o diferencial mais impactante na hora de escolher um destino turístico?  São vários atributos, como as paisagens, as festas e as pessoas, igualmente importantes, que compõe a cultura local, que, por sua vez, se constitui no principal motivo pelo qual se visita um país.

Entendemos aqui cultura como o conjunto de manifestações que dá singularidade a um determinado grupo social, fruto das relações sociais e da profunda interação dos homens com o meio em que vivem. Constitui-se num patrimônio material e imaterial acumulado e transformado ao longo de gerações. Um legado que não se limita a manifestações artísticas, à língua, à religião, mas se articula nos mais variados domínios da produção humana. A cultura confere uma identidade coletiva a um determinado grupo social, espacialmente definido e historicamente determinado (CASTRO apud Vaz, 2011, p.5).

A cultura local é utilizada como propaganda dos próprios países para atrair visitantes estrangeiros. É algo que torna um destino único e que pode agregar valor ao mesmo. No entanto, a cultura local também pode ser um motivo para não visitar um destino.

É o caso do Japão. Um país com uma cultura milenar, conhecida e admirada mundialmente, que recebe metade do número de turistas que saem de lá anualmente. Em 2009, 21 milhões de japoneses visitaram outros países. Já, em 2013, mesmo com muitos esforços do governo japonês, 10 milhões de turistas visitaram o Japão. (MINISTÉRIO DO TURISMO, 2009) Comparado aos Estados Unidos, por exemplo, com 60 milhões de visitantes em 2013 (OMT, 2014a), esse número é pequeno.

O que faz o Japão receber poucos turistas deve ser um conjunto de fatores, como as condições climáticas, e o pequeno território do país, mas o principal provavelmente é: japoneses não gostam de estrangeiros. O que afasta o turista é parte da cultura do país, uma população fechada e xenofóbica (POLLMANN, 2015); (ASAHI SHIMBUN, 2008). É uma cultura antiga, que prega o nacionalismo e o orgulho por ser japonês. A xenofobia é algo implantado na mente do japonês desde criança, e muito presente na sociedade nipônica. Segundo Tobace (2014), em agosto de 2014 a ONU criticou o governo japonês devido às diversas reclamações de estrangeiros que sofreram xenofobia.  Os próprios japoneses ao imigrarem para o Brasil, criaram comunidades fechadas e cooperativas de trabalho (KAWANO, 2009). Criaram escolas de educação básica próprias, em japonês. Recriaram sua cultura em festivais exclusivos da comunidade. É o caso da colônia japonesa de Ivoti, no Rio Grande do Sul, que tem uma feira de agricultura e gastronomia japonesa todo mês, mas que até um ano atrás, era frequentada basicamente por japoneses locais e parentes (GEVEHR; DILLY, 2015, p. 17). A feira existe há anos, como uma forma de interação entre essas pessoas, mas só agora é um evento de interação com o resto da população da cidade e da região.

No idioma japonês, a palavra que define estrangeiros é “gaijin”. Essa palavra tem uma entonação pejorativa ao ser pronunciada por um japonês (OLIVEIRA, 2010, p. 8). É como se a grande massa da população visse os estrangeiros como invasores. Isso dificulta muito o turismo nas terras nipônicas. Quem vai, normalmente não quer voltar. (POLLMANN, 2015)

Isso não significa que não exista hospitalidade no Japão. Existem muitos hotéis e vários pontos turísticos planejados para receber visitantes. Mas não necessariamente, precisam ser visitantes de fora. Nos restaurantes, encontra-se uma quantidade pequena de menus em inglês fora das cidades grandes, então o turista é obrigado a falar, compreender e ler japonês para ter uma boa experiência. Segundo Tobace (2014), nos próprios karaokês há placas dizendo “proibido estrangeiros”.

Há vários incentivos do governo japonês que visam melhorar a estrutura local para receber turistas e divulgar as atrações turísticas do país internacionalmente. Estes programas vêm trazendo resultados, pois de 2010 a 2013, o número de turistas no Japão aumentou 20,9% (OMT, 2014b). A meta do governo é chegar nos 20 milhões de visitantes até 2020. No entanto, sem uma conscientização da população, o quanto essa cultura nacionalista dos japoneses vai impedir seu próprio país de explorar o turismo?

REFERÊNCIAS

Winston Shoso Chiba

ASAHI SHIMBUN Culture Research Center. Japan’s Entrenched Discrimination Toward Foreigners. The Asian-Pacific Journal. Tóquio, v. 6, n. 10, 03 out. 2008. Disponível em: <http://apjjf.org/-The-Asahi-Shimbun-Culture-Research-Center-/2932/article.html>. Acesso em: 03 maio 2016.

BAIBICH, Tânia Maria. O auto-ódio na literatura brasileiro-judaica contemporânea. Comunicações Científicas. Natal: Afirse, 2001. Disponível em: <http://www.afirse.com/archives/cd3/tematica1/074.pdf>. Acesso em: 03 maio de 2016.

GEWEHR, Daniel Luciano; DILLY Gabriela. Práticas de educação patrimonial em comunidades voltadas para o desenvolvimento regional: o caso da colônia japonesa (Ivoti, RS). Anais do VII Seminário Internacional sobre Desenvolvimento Regional. Santa Cruz do Sul: UNISC, 2015. Disponível em: <http://online.unisc.br/acadnet/anais/index.php/sidr/article/view/13383/2548>. Acesso em 03 maio 2016.

KAWANO, Carmen. As comunidades de origem japonesa: para entender os anglicanos japoneses e seus descendentes no Brasil. Revista Inclusividade. 2009, n. 16, Porto Alegre. Disponível em: <http://www.centroestudosanglicanos.com.br/rev/16/comunidades_origem_japonesa.pdf>. Acesso em: 03 maio 2016.

MINISTÉRIO DO TURISMO. Um pouco mais de Brasil no Japão. 17 set. 2009. Disponível em: <http://www.turismo.gov.br/%C3%BAltimas-not%C3%ADcias/221-um-pouco-mais-de-brasil-no-japao.html>. Acesso em: 28 abr. 2016.

OLIVEIRA, Andréa Macedo Machado Larocca de. Brasil, Japão: centenário de interação cultural e sexual. Rio Claro: UNESP, 2010. Disponível em: <http://repositorio.unesp.br/bitstream/handle/11449/120245/oliveira_amml_tcc_rcla.pdf?sequence=1&isAllowed=y>. Acesso em: 03 maio 2016.

OMT. La OMT elogia el compromiso de Japón con el turismo. OMT.  28 out. 2014(a). Disponível em: <http://media.unwto.org/es/press-release/2014-10-30/la-omt-elogia-el-compromiso-de-japon-con-el-turismo>. Acesso em: 28 abr. 2016.

______. Panorama OMT del turismo internacional. 2014(b). Disponível em: <http://www.dadosefatos.turismo.gov.br/export/sites/default/dadosefatos/estatisticas_indicadores/ downloads_estatisticas/OMT__Turismo_highlights_2014_sp.pdf>. Acesso em: 28 abr. 2016.

POLLMANN, Mina. Japan’s Xenophobia Problem. The Diplomat. 24 jul. 2015. Disponível em: <http://thediplomat.com/2015/07/japans-xenophobia-problem>. Acesso em: 03 maio 2016.

TOBACE, Ewerthon. Japão recebe críticas da ONU após onda de xenofobia nas ruas. BBC.COM. Tóquio, 10 set. 2014. Disponível em:<http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2014/09/140908_discriminacao_etnica_japao_et_rm >. Acesso em: 28 abr. 2016.

VAZ, Leopoldo Gil Dulcio. Lazer, hospitalidade, identidades e culturas regionais e locais. Motrivivência. v. 23. n. 36, p. 323-333. jun. 2011. Disponível em: <http://www.cleongostinski.com/files/upload/62735408.pdf>. Acesso em: 28 abr. 2016.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.