Os riscos da semântica do preconceito para o profissional de hotelaria

Os riscos da semântica do preconceito para o profissional de hotelaria

A semântica estuda o significado e a interpretação do significado de uma palavra. A palavra preconceito, por sua vez, segundo o dicionário Michaelis (1998), significa “atitude emocionalmente condicionada, baseada em crença, opinião ou generalização, determinando simpatia ou antipatia para com indivíduos ou grupos.” Considerando a importância desta questão no âmbito da hospitalidade passa a ser necessário que o profissional da hotelaria reflita sobre a semântica do preconceito.

Não é segredo que o preconceito existe em todos nós. Alguns o revelam abertamente, outros tentam disfarçar, e há os que sugerem o preconceito em sua linguagem, inconscientemente.

A socióloga Edna Coqueiro (2008, p. 23) lista algumas frases que exemplificam esta afirmação. Em sua tese A Naturalização do Preconceito Racial no Ambiente Escolar, é possível verificar a existência de três diferentes conotações de preconceito, que podem ser exemplificados de forma característica, através de expressões:

1. Que revelam preconceito abertamente:
– Um negro parado é suspeito; correndo é culpado;
– Tinha que ser preto;
– Não faça serviço de preto!

2. Que disfarçam o preconceito:
– Preto de alma branca;
– É negro, mas é inteligente;
– É negra, mas é bonita;
– Apesar de negro, ele é legal, é gente boa;
– Ele tem uma inveja branca.

3. Frases que sugerem o preconceito inconscientemente:
– A situação está preta!
– Não quero denegrir a imagem do meu hotel!
– Ele é a ovelha negra da família!

Por que razão são usados todos esses termos? “A linguagem não expressa apenas as ideias e os conceitos, mas tudo o que se pensa. Desta forma se entendemos que somos dominados por uma cultura oriunda da Europa, branca, elitista, então não podemos esperar que nossa linguagem, que é transmissora dessa cultura, não reflita tal fato”. (LOPES apud Nascimento, 1994. p. 97)

O dicionário do Aurélio (2008) define os termos “preto”, “negro” e “branco” da seguinte forma:
– “Preto: sujo, encardido, difícil, perigoso;
– Negro: de cor preta, preto, encardido, melancólico, indivíduo da raça negra, escravo;
– Branco: inocente, puro, cândido, ingênuo, homem de raça branca”.

É possível perceber conotações preconceituosas nas definições, pois elas reforçam a semântica do preconceito. A influência cultural e a formação educacional contribuíram para a criação de um modelo mental na sociedade. Neste modelo mental é comum pensar em negros como pessoas inferiores. Por que é importante desconstruir este modelo mental?

“Ser negro no Brasil é frequentemente ser objeto de um olhar vesgo e ambíguo.” (SANTOS, 2003)  Na área de hotelaria e hospitalidade, onde o contato com o público é muito direto, deve-se tomar cuidado com a linguagem. O uso de certas palavras ou expressões pode causar desconforto e até magoar clientes. Por exemplo: um recepcionista, que tem em seu modelo mental a ideia de que negros sempre prestam serviços operacionais, pode causar sérios problemas ao hotel onde trabalha e a si mesmo. Em uma era em que temos um negro como presidente dos Estados Unidos, deve-se desaprender tais formas de pensar, sentir e verbalizar o preconceito. Um bom profissional deve se comportar como se todos os hóspedes fossem sensíveis a esse assunto.

Os artigos 1º e 20 da Lei nº 7.717, de 5 de janeiro de 1989, estabelecem que: “Art. 1º Serão punidos, na forma desta Lei, os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. (…) Art. 20. Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional.”(BRASIL, 1989) As ações de um profissional da área devem ser motivadas por uma questão de respeito, de valores, de fidelização, e também por questões legais.

Por mais que a semântica do preconceito esteja muito presente em nossa forma de pensar, de nos comunicar e de agirmos, devemos desaprendê-la.

“Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele ou por sua origem, ou sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender. E se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar.” (MANDELA apud Alves, 2015, p. 3)

Ana Clara Vida Galdino Silva

REFERÊNCIAS

ALVES, Marcedonia Oliveira. A diversidade do Brasil plural … Revista Compartilhando Saberes. n. 2, 2015. Disponível em: <http://www.sec.pb.gov.br/revista/index.php/compartilhandosaberes/article/view/27>. Acesso em: 16 abr. 2016.

BRANCO. In: FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Dicionário do Aurélio. Curitiba: Positivo, 2008. Disponível em: <https://dicionariodoaurelio.com>. Acesso em: 16 abr. 2016.

BRASIL. Lei Nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989. Define os crimes resultantes de preconceito de raça ou de cor. Brasília, 5 jan. 1989. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L7716.htm> Acesso em: 15 abr. 2016.

COQUEIRO, Edna. A naturalização do preconceito racial no ambiente escolar: uma reflexão necessária. 2008. Disponível em: <http://www.diaadiaeducacao.pr.gov.br/portals/pde/arquivos/1838-6.pdf>. Acesso em: 15 abr. 2016.

NEGRO. In: FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Dicionário do Aurélio. Curitiba: Positivo, 2008. Disponível em: <https://dicionariodoaurelio.com>. Acesso em: 16 abr. 2016.

PRECONCEITO. In: WEISZFLOG, Walter. Dicionário Michaelis. São Paulo: Melhoramentos, 1998. Disponível em: <http://michaelis.uol.com.br/moderno/portugues/index.php?lingua=portugues-portugues&palavra=preconceito>. Acesso em: 16 abr. 2016.

PRETO. In: FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Dicionário do Aurélio. Curitiba: Positivo, 2008. Disponível em: <https://dicionariodoaurelio.com>. Acesso em: 16 abr. 2016.

SANTOS, Milton. Ser negro no Brasil hoje. 12 fev. 2003. Disponível em: <http://antroposmoderno.com/antro-articulo.php?id_articulo=527> Acesso em: 15 abr. 2016.

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