Toda viagem é uma aventura: as narrativas de viagem

Toda viagem é uma aventura: as narrativas de viagem

Uma viagem encerra em si o sentido de ritual e o seu registro é a tentativa de perpetuar a experiência. As narrativas de viagem se difundem em diversos formatos, especialmente no contexto atual de avanço das tecnologias. Luiz Trigo (2010) volta no tempo, dizendo que as viagens estão no imaginário das civilizações desde os primórdios. Ele (2010, p. 21), afirma:

nas brumas dos tempos míticos, as grandes aventuras aconteciam nas viagens. A primeira descrição de uma viagem de formação aparece no mito babilônico de Gilgamesh (1900 a.C.), jovem rei que, em suas viagens, deixava de ser um predador de seu povo para tornar-se seu pastor e protetor. Desde a Odisseia, escrita na Grécia antiga e conhecida pelo título de “poemas homéricos”, até Jasão e seus argonautas (entre eles Heracles e Orfeu), os perigos e as maravilhas das viagens sempre encantaram as pessoas.

Trigo (2010) enfoca ainda aos escritos bíblicos, as particularidades de viagens intrigantes em territórios do Oriente Médio. Já Martinez (2012), persegue o jornalismo literário, partindo da Carta de Pero Vaz de Caminha até os livros-reportagem e os atuais blogs de viagem destacando as possibilidades de narrativas. Relaciona, por exemplo, Homero como um dos pioneiros através da obra Ilíada: uma época onde as peculiaridades das viagens eram capazes de produzir narrativas admiráveis. Francesca Pellegrino (2007) vai em outra direção afirmando que os escritores viajantes foram hábeis em romper seus vínculos com seus territórios de origem, impelidos por seus fortes desejos de aventura e liberdade.

Trigo (2010), Romanielo (2014) e Martinez (2012) discutem as transformações do sujeito viajante que, ao absorver a experiência de viagem, transmutam-se em outra pessoa: a cada novo espaço de convivência descobrem-se diferentes. A reflexão de Ianni (2003, p.31) completa a ideia dos autores: “no curso da viagem há sempre alguma transfiguração, de tal modo que aquele que parte não é nunca o mesmo que regressa”.

Na verdade, a sucessão de cenários, o movimento de deslocamento, o desconhecido e o que está por advir fornecem enredos que se conectam ao registro de sempre novas dimensões espaço-temporais. Adequado exemplo desta realidade pode ser visualizado em produções cinematográficas, principalmente através do gênero road movies. Os elementos de contexto, nestas obras, revelam eventos ricos em realidades distintas: legítimos lugares de passagem. São filmes que, abordando uma ou mais viagens, possuem histórias baseadas em travessias (ROMANIELO, 2014).

Pellegrino ensina (2007, p.250) que “a viagem é a melhor metáfora para a vida humana, linear e progressiva. Segundo a crença cristã, fortemente teleológica, é apenas um lugar de passagem: o homem é um viator”.

Tratando-se da estruturação de narrativas, elas se estruturam a partir de cinco elementos que, em conjunto, compõem o enredo: ação, personagens, espaço, tempo e narrador. Neste sentido, a repercussão dos relatos de viagem é dependente das interpretações do viajante sobre o que viu, a época da viagem e sobretudo sua visão crítica do que vivenciou (TODOROV, 1976 apud Martinez, 2012).

Portanto, o viés das narrativas conferido pelo personagem-viajante terá a capacidade de construir uma realidade particular que poderá promover no espectador diferentes e tendenciosos níveis de identificação: da compulsão em viajar a repulsa. Isto sempre considerando a credibilidade daquele que conta sobre a sua viagem.

Luciana das Neves Alves

REFERÊNCIAS

IANNI, Octávio. Enigmas da modernidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.

MARTINEZ, Monica. Narrativas de viagem: escritos autorais que transcendem o tempo e o espaço. Revista Brasileira de Ciências da Comunicação. Curitiba, v. 35, n. 1, 2012. Disponível em: <http://www.portalintercom.org.br/anais/sul2016/resumos/R50-0689-1.pdf>. Acesso em: 07 jun. 2016.

PELLEGRINO, Francesca. Geografía y viajes imaginarios. Barcelona: Electa, 2007.

ROMANIELO, Ana Luiza Pereira. O outro lado da estrada: o estudo do gênero Road Movie no cinema de Walter Salles. Três Corações: UninCor, 2014. Disponível em: <http://www.unincor.br/images/arquivos_mestrado/dissertacoes/ana_luiza_pereira_romanielo.pdf>. Acesso em: 07 jun. 2016.

TRIGO, Luiz Gonzaga Godoi. A viagem como significativa experiência. In: PANOSSO NETTO, Alexandre; GAETA, Cecília (Orgs.). Turismo de experiência. São Paulo: SENAC São Paulo, 2010.

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