Turismo revela choques culturais entre chineses e ocidentais

Turismo revela choques culturais entre chineses e ocidentais

A República Popular da China é o país mais populoso do mundo com 1,381 bilhões de habitantes. Detentora de quase um quinto da população da terra. (MILANI et al., 2014) Com o início lento e gradual da abertura de sua economia em 1976 por Mao Tse-Tung, que perdurou até 1990, o país se transformou numa potência econômica. (SPINOLA, 2011) De acordo com o Banco Mundial (2014) a China conquistou a posição de segunda maior economia mundial, atrás apenas dos Estados Unidos da América. Com um Produto Interno Bruto (PIB) de U$ 10.380 trilhões. (UOL, 2014) Entre 2001 e 2010 o PIB aumentou anualmente, em média, 10.5%. Somente entre 2007 a 2011 a economia cresceu o equivalente a soma de todas as economias do G7, grupo com as sete maiores economias mundiais. Levando em consideração a Paridade do Poder de Compra (PPC), que é uma ferramenta utilizada para medir o poder de compra de duas nações, o país asiático lidera o ranking com U$18.088 bilhões. (SANTAYANA, 2013)

Devido ao crescimento econômico exponencial, maior distribuição de renda, um enriquecimento vertiginoso por parte da população, regulações mais flexíveis de migração e, consequentemente, de emigração, aliados à diminuição das tarifas dos bilhetes aéreos, houve uma transformação drástica na cadeia de turismo da China na última década. (MEDEIROS; MORAIS, 2009). De acordo com a agência de Administração Nacional de Turismo da China, 120 bilhões de chineses viajaram ao exterior em 2015 desembolsando uma quantia de 104 bilhões de dólares. Um aumento de 12% e 16,7% respectivamente quando comparado com o ano anterior. A agência estatal afirma que atualmente o país é o maior emissor de turistas internacionais no mundo. A Organização Mundial do Turismo (OMT), assegura que os chineses são os indivíduos que mais gastam em viagens ao exterior. (TRAVEL CHINA, 2015)

Ao compasso que alguns países estão mirando suas atenções para melhor receber esse contingente de turistas chineses, visando o volume e a lucratividade do setor, outras nações não compartilham do mesmo entusiasmo. A euforia econômica cede lugar às diferenças e choques de relacionamento entre culturas tão distintas, aliado a dificuldade de comunicação entre as partes. Inúmeros incidentes aconteceram recentemente originados de casos de comportamento duvidoso dos chineses em viagens ao exterior. Inclusive, alguns episódios tiveram repercussão internacional. (INTERNSHIPS CHINA, 2016)

Esses incidentes podem ser classificados como oriundos de mau comportamento ou os ocidentais querem ditar padrões de comportamentos pré-estabelecidos por suas sociedades aos orientais, principalmente aos chineses? O embate ressoou tão fortemente mundo afora que o governo chinês se sentiu na obrigação de tomar uma posição quanto aos imbróglios que seus cidadãos estão enfrentando no exterior. (INTERNSHIPS CHINA, 2016) Será que o anfitrião tem que compreender e aceitar a cultura alheia, ou o imigrante tem que se adaptar ao contexto em que se insere mesmo que momentaneamente?

Inúmeros casos de vandalismo praticados por chineses foram veiculados pela mídia internacional nos últimos anos (KITCHING, 2014). Entre os mais noticiados está o caso de um adolescente em viagem com sua família no Egito que gravou seu nome em ruínas de um templo antigo. Outro cidadão chinês foi quem identificou a gravura e publicou a imagem da depredação em um blog alegando que estava tão envergonhado que queria se esconder. Analisando atentamente os templos em Luxor é possível identificar várias pichações em diversas línguas, porém os chineses têm o hábito de esculpir seus nomes em lugares turísticos a uma alusão ao um clássico conto chinês de uma jornada ao oeste em que o Rei Macaco grava no dedo de Buda que ele esteve ali. (DEMICK, 2013)

Em um outro incidente em um voo de Bangcoc na Tailândia para Nanjing na China um grupo de passageiros atacou fisicamente uma aeromoça, escaldando seu rosto com água quente, pois estavam descontentes com os assentos para os quais foram alocados. Um dos passageiros inclusive ameaçou explodir o avião tamanho a sua frustração de não poder sentar ao lado de sua namorada. (KITCHING, 2014)

A companhia de trens da Suíça recentemente tomou medidas específicas para coibir o comportamento inapropriado de alguns passageiros. Disponibilizou dois tipos de trem. O primeiro para passageiros asiáticos e o segundo para clientes internacionais. No trem designado aos asiáticos a companhia informa aos passageiros o modo de como usar o toalete. De acordo com a mídia internacional a companhia não foi a única a tratar os chineses diferentemente. Um templo budista na Tailândia proibiu o acesso de chineses devido a não saberem usar corretamente os banheiros. O templo só voltou a permitir o acesso após o guia de cada excursão chinesa se responsabilizar pelo seu grupo nos banheiros. (FAN, 2015)

Casos como esses tiveram tanto impacto negativo na imagem da China no exterior que o governo teve que entrar na discussão. O vice primeiro ministro chinês Wang Yang citado por Demick (2013) declarou: eles fazem um enorme alvoroço em lugares públicos, picham seus nomes em lugares turísticos, ignoram o sinal vermelho ao atravessarem as ruas e cospem em todos os lugares. Atos como esse denigrem nossa imagem nacional e têm um terrível efeito.

Para coibir a percepção internacional de mau-comportamento e falta de cultura e sofisticação do povo chinês, o governo tomou medidas para coibir tais comportamentos. Ele publicou um manual de 62 páginas com práticas de bom comportamento em viagens ao exterior. Entre as diretrizes destacam-se: não gritar em público; respeitar as filas; comer educadamente sem fazer barulhos e caso a refeição ocorra em uma praça de alimentação, limpar a mesa para o próximo; não participar de jogatinas e atos sexuais em público; não cuspir em público; não cuspir goma de mascar no chão; não fumar em lugares proibidos; não andar sob a grama; não colher flores ou frutas; não agredir nenhum animal; não ser agressivo com os nativos exigindo fotos; respeitar a religião alheia; não andar sem camiseta; não sujar os banheiros; dar descarga após o uso; não urinar ou defecar em público; em um buffet não se servir de tudo de uma vez; na Alemanha assoviar apenas para cachorros e em hipótese alguma assoviar para alguém. (GUILFORD, 2013)

Além do manual publicado, o governo veiculou na mídia quadros em que atores fantasiados de pandas se comportam terrivelmente mau no exterior. Em um quadro os pandas vão até Sidney na Austrália onde urinam na rua e escrevem seus nomes em árvores. O governo espera que através do humor de cenas de animais, baseadas no comportamento humano os viajantes aprendam a boa prática de como se comportar. (GUILFORD, 2013)

Hoje, o governo chinês está punindo seus cidadãos envolvidos em escândalos no exterior. Os nomes dos integrantes de má condutas são inseridos numa lista negra. Dependendo da seriedade da infração, ficam com o nome maculado por até 3 anos. Durante esse período as empresas de turismo, agências, companhias aéreas e qualquer elo da cadeia de turismo podem negar serviço a eles. (GUILFORD, 2013)

Alguns países europeus também estão tomando medidas para aparar os conflitos com os asiáticos. Recentemente, a prefeitura de Paris publicou um guia para o setor de turismo instruindo frases úteis em mandarim e sugestões culturais de como melhor entendê-los. (K.M., 2013)

Acredita-se que, à medida que mais chineses viajam pelo exterior pela primeira vez e assimilam o comportamento ocidental, os conflitos irão diminuir. Aliado ao crescimento de jovens chineses que estão começando a se aventurar pelo mundo afora. Esses jovens cresceram com filmes, programas de tv, livros e shows estrangeiros, assim assimilam mais facilmente as diferenças culturais. O aumento desses jovens e o bom comportamento deles no exterior deve amenizar a imagem negativa que muitos países têm da China. (JEUNE, 2014)

A China adotou medidas para melhor preparar seus viajantes no exterior. Eles podem ser classificados como mal-educados, pois mal-educado é alguém que conhece as normas de conduta, porém não as obedece. Já povos de outra cultura que não compartilham das mesmas regras que os ocidentais não podem ser classificados como tais, pois eles têm suas próprias condutas. Será que os ocidentais ao visitarem países asiáticos não estariam cometendo deslizes culturais e até insultando seus costumes? Os chineses estão aprendendo os costumes ocidentais antes de entrarem no avião. (GUILFORD, 2013) Já os ocidentais continuam a ignorar muitos costumes orientais. Será que não está na hora, a exemplo deles, dos ocidentais se disporem a estudar mais a cultura de um país antes de viajar?

Marcus Nascimento Salim

REFERÊNCIAS

ARLT, Wolfgang Georg. China’s outbound tourism in 2015: another year of resilient growth and new trends. 05 jun. 2016. Disponível em: <http://www.forbes.com/sites/profdrwolfganggarlt/2015/12/30/2015-year-of-resilient-growth-and-further-segmentation-of-chinas-outbound-tourism/#68cba67c1d46>. Acesso em: 02 jun. 2016.

DEMICK, Barbara. Boy’s graffiti in ancient temple sparks ding-dong over chinese tourism. 30 maio 2013. Disponível em: <http://www.traveller.com.au/boys-graffiti-in-ancient-temple-sparks-dingdong-over-chinese-tourism-2ndie>. Acesso em: 01 jun. 2016.

FAN, Yiying. “Too Loud, Too Rude”: Switzerland introduces separate trains for chinese tourists. 27 ago. 2015. Disponível em: <http://www.whatsonweibo.com/too-loud-too-rude-switzerland-introduces-separate-trains-for-chinese-tourists>. Acesso em: 01 jun. 2016.

GUILFORD, Gwynn. Chinese government publishes guide on how to avoid being a terrible tourist. 07 out. 2013. Disponível em: <http://www.theatlantic.com/china/archive/2013/10/chinese-government-publishes-guide-on-how-to-avoid-being-a-terrible-tourist/280332>. Acesso em: 02 jun. 2016.

INTERNSHIPS CHINA. Badly behaved tourists and the implications for China. 2016. Disponível em: <http://www.internshipschina.com/community/chinainsights2/55-china-insights/730-what-chinese-tourists-do-for-china#.V07ES1c4ptQ>. Acesso em: 01 jun. 2016.

JEUNE, Olivier. The chinese tourists evolution. 15 set. 2014. Disponível em: <http://chinesetouristagency.com/chinese-tourists-evolution>. Acesso em: 18 jun. 2016.

K. M. Mind your manners. 06 nov. 2013. Disponível em: <http://www.economist.com/blogs/analects/2013/11/chinese-tourists>. Acesso em: 18 jun. 2016.

KITCHING. Chris. Moment flight attendant was scalded with hot water and noodles by unruly passenger who wanted to sit next to her boyfriend. 15 dez. 2014. Disponível em: <http://www.dailymail.co.uk/travel/travel_news/article-2874902/AirAsia-flight-attendant-scalded-hot-water-noodles-unruly-passenger-wanted-sit-husband.html>. Acesso em: 29 maio 2016.

MEDEIROS, Carlos Aguiar de.; MORAIS, Isabela Nogueira de. Uma abordagem estruturalista das desigualdades de renda da China contemporânea. Revista Tempo do Mundo. Brasília, v. 1, n. 1, dez. 2009. Disponível em: <http://repositorio.ipea.gov.br/bitstream/11058/6117/1/RTM_v3_n3.pdf>. Acesso em: 18 jun. 2016.

MILANI, Carlos R. S. et al. Atlas da política externa brasileira. Río de Janeiro: EDUerj, 2014. Disponível em: <http://www.academia.edu/9802279/Atlas_da_Pol%C3%ADtica_Externa_Brasileira>. Acesso em: 18 jun. 2016.

SANTAYANA, Mauro. O Brasil, os Brics e o FMI. 18 fev. 2013. Disponível em: <https://neccint.wordpress.com/2013/02/18/o-brasil-os-brics-e-o-fmi>. Acesso em: 18 jun. 2016.

SPINOLA, Danilo Sartorello. As relações de comércio Brasil-China e mudanças na estrutura produtiva nacional no início do séc. XXI. Campinas: UNICAMP, 2011. Disponível em: <file:///Users/cleongostinski/Downloads/DaniloSpinola.pdf>. Acesso em: 18 jun. 2016.

TRAVEL CHINA Guide. China outbound tourism in 2015. maio 2016. Disponível em: <https://www.travelchinaguide.com/tourism/2015statistics/outbound.htm>. Acesso em: 02 jun. 2016.

UOL. Brasil é 7ª maior economia, e China deve passar EUA logo, diz Banco Mundial. 30 abr. 2014. Disponível em: <http://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2014/04/30/ranking-do-banco-mundial-traz-brasil-como-a-7-maior-economia-do-mundo.htm>. Acesso em: 18 jun. 2016.

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