Um estilo de vida hospitaleiro

Um estilo de vida hospitaleiro

Refletir sobre a hospitalidade traz a memória, em um primeiro momento, a ‘indústria hoteleira’. Mas será que este simples termo se refere somente a isso? Aos hotéis, pousadas, turismo e hóspedes? Será que existe alguma outra maneira de avaliar a tão falada hospitalidade?

Para entender um pouco mais sobre esse termo Plentz (2007, p. 58) define que:

a palavra hospitalidade deriva do latim hospitalitate. Também da palavra latina hospitalitas-ati, a noção de hospitalidade traduz-se como o ato de acolher, hospedar; a qualidade do hospitaleiro; boa acolhida; recepção; tratamento afável, cortês, amabilidade; gentileza.

Leonardo Boff (2005) demonstra que a hospitalidade é a sensibilidade, capacidade de identificar no outro suas necessidades. Evidenciando a compaixão, que se resume em esquecer de si mesmo e cuidar, preocupar-se com o outro.

Desta forma, é possível perceber que a hospitalidade não consiste somente em uma relação entre hóspede e anfitrião, seja ela comercial ou gratuita. Ela vai muito além disso. A hospitalidade compreende também atitudes e comportamentos que a definem.

A escola francesa, que é uma das que se destaca no estudo da hospitalidade, acredita que dar-receber-retribuir caracterizam claramente a hospitalidade. Eles acreditam que ela é um dom, uma dádiva, algo incondicional, ou seja, pessoas que fazem o bem porque gostam. (CAMARGO, 2004)

O autor descreve a hospitalidade como um ritual simples que compreende a conexão entre duas pessoas em um determinado espaço, onde algo (hospedagem, alimentação, entretenimento, conversa…) será desenrolado. E isso implica devidamente em sacrificar algo por alguém. O autor ainda afirma que a hospitalidade está relacionada com a paixão em receber pessoas e não com a capacidade e condição que existe para fazê-la.

Diante desse pressuposto pode-se entender duas coisas: a primeira é que a hospitalidade não necessariamente é exclusiva da indústria hoteleira; e a segunda é que ela é totalmente necessária em nossas relações. A hospitalidade é algo intrínseco, que expõe a atenção demonstrada por alguém.

Há uma passagem bíblica, que diz que as pessoas devem ser hospitaleiras. Isso é encontrado no primeiro livro de Pedro capítulo 4 verso 9, que diz: “Sendo hospitaleiros uns para com os outros, sem murmurações.” (BÍBLIA ONLINE, 2016). Neste versículo Paulo não propõe uma condição de hóspede e anfitrião para a prática da hospitalidade, ele apenas ordena que este comportamento deve ser realizado com todos.

Desta maneira, entende-se que a hospitalidade é mais que uma definição de arrumação de quartos, formas de serviço ou um bom atendimento em hotel. Ela é uma característica que pode ser dada a alguém. Para ser hospitaleiro, não é necessário ser um dono de hotel. Isso pode fazer parte da essência de alguém ou da escolha que se faz de adquirir hábitos hospitaleiros.

Quando se compreende que pessoas, atualmente, estão optando por viver suas vidas baseadas em correntes que caracterizam determinados grupos que detém suas rotinas, valores e conceitos, é possível pensar em um estilo de vida hospitaleiro. Utilizando dessa dádiva em todas as relações do dia-a-dia. Seja no trabalho, em casa, na igreja, no mercado, entre outros. Mas que, de alguma forma, sempre se pratique a hospitalidade em simples atos, como por exemplo, quando um determinado aluno vai ao encontro do professor para uma orientação. De certa forma, o professor de um modo hospitaleiro irá receber esse aluno, ‘alimentá-lo’ com os seus conhecimentos/orientações e despedir-se. Em uma simples orientação, então percebe-se que, de alguma forma, aquele professor teve que acolher o aluno, dando-lhe direções para o seu desenvolvimento.

Então, assim como uma pessoa pode adquirir um estilo de vida ‘saudável’ mudando suas atitudes, pode-se dizer que é possível adotar um estilo de vida ‘hospitaleiro’: modificando comportamentos e rotinas com o objetivo de transmitir em todo tempo a hospitalidade; melhorando as relações e sensações que são transmitidas ao outro e sempre utilizando da principal característica da hospitalidade, segundo a escola francesa, que nada mais é do que dar-receber-retribuir.

Heloisa Cadó Lopes

REFERÊNCIAS

BÍBLIA ONLINE. 2016. Disponível em: <https://www.bibliaonline.com.br/acf/1pe/4>. Acesso em: 17 jun. 2016.

BOFF, Leonardo. Virtudes para um mundo possível. Petrópolis: Vozes, 2005.

CAMARGO, Luiz Otávio de Lima. Hospitalidade. São Paulo: Aleph, 2004.

PLENTZ, Renata Soares. Dialética da hospitalidade: caminhos para a humanização. UCS: Caxias do Sul, 2007. Disponível em: <https://repositorio.ucs.br/xmlui/handle/11338/213>. Acesso em: 17 jun. 2016.

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